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Lista de falecimentos - 29/04/2015

Anastácia Jaciuk Santos: das terras da Ucrânia para os Campos Gerais

 | Arquivo da família
(Foto: Arquivo da família)

Assim como milhares de imigrantes de países em guerra, a família de Anastácia Jaciuk Santos percorreu milhares de quilômetros para fugir das agruras dos conflitos armados do país de origem, a Ucrânia, em 1927. Deixaram para trás parentes, amigos, os campos de trigo e o solo de terra negra da fria aldeia de Shkrobotivka, no Oeste do país. A fome e as dificuldades impostas pelo regime comunista russo também ficaram na terra natal. Aos dois anos, a primogênita fez a maior viagem de sua vida.

Depois de um longo percurso de trem e de navio, Anastácia e a família aportaram no Rio de Janeiro, então capital federal do Brasil. Com apenas uma referência de um parente que anos antes viera para morar no Paraná, o destino escolhido foi Paranaguá. Com ajuda de um intérprete, o pai de Anastácia, Mateus, foi recrutado pelo ervateiro Herculano Carlos Franco de Souza, fundador da Entidade Socorro aos Necessitados, para trabalhar na Fazenda São Carlos, em São João do Triunfo, no interior do Paraná. A região era conhecida por ser uma das maiores produtoras de erva-mate e madeira do estado.

Com todo o histórico de uma família de desbravadores, Anastácia tomou para si o empenho do pai e a vocação para o trabalho. Aos 18 anos, casou com Eurípedes Ferreira dos Santos, um jovem comerciante. Moravam na Vila Palmira, importante porto fluvial às margens do Rio Iguaçu, de onde chegavam e eram despachadas mercadorias como erva-mate, madeira e cereais. Na entressafra, o marido, que também era tropeiro, dedicava-se ao abate de suínos e bovinos, e à compra de equinos que trazia do interior dos estados da Região Sul do Brasil.

Anastácia contava para os netos que as viagens do marido duravam até três meses e o cuidado da casa e das três filhas era de sua responsabilidade. Em certa ocasião, as três meninas ficaram doentes ao mesmo tempo. Depois de avaliação médica, descobriu-se que as meninas tinham sido contagiadas com o vírus da Gripe Asiática, doença com alta letalidade durante a década de 1950.

Com a construção da Rodovia do Café, ocorreu o declínio da navegação no Rio Iguaçu e também do comércio da família. O casal e as filhas resolveram se mudar para Ponta Grossa. A renda vinha do transporte de cereais e com a administração de dois açougues. Anastácia não arredava o pé do convívio com os negócios.

Aos 52 anos, a ucraniana de nascimento, mas de coração brasileiro, ficou viúva. E, como trabalho era seu nome, assumiu os esforços com a família e a casa. Ainda assim tinha tempo para os vasos de flores e o jardim de rosas.

Em 1981, nasceu Anderson, o neto que ela cuidou com o amor duplo de uma avó, pois os pais precisavam trabalhar. Em 1993, a filha mais velha, Hernany, morreu, aos 48 anos. Anastácia passou a cuidar de outros três netos.

Era uma avó especial, recorda-se Anderson. O pão era divino. Fazia uma broa de centeio como ninguém, a qual acompanhava as sopas de macarrão caseiro. Ele cita outras delícias que a matriarca preparava: os bolinhos de batata, o folhado, a panqueca, e os pasteis de queijo e requeijão, assim como do charuto recheado com carne. As receitas da Ucrânia foram ensinadas com pela mãe de Anastácia, Julieta.

O problema das varizes foi diagnosticado na década de 1960, e muitos anos depois evoluiu para uma úlcera varicosa. Houve a necessidade de amputar um dos membros inferiores, em 2004 . Todos achavam que Anastácia iria ficar depressiva devido a sua independência e ao número de atividades que realizava. Ao contrário, aceitou a cadeira de rodas e nela aproveitou as viagens para a praia; fez visitas aos irmãos e ia com regularidade à Vila Palmira, onde tudo começou. Continuou vaidosa como sempre. Para ela, o correto era comer pouco e se alimentar de forma saudável. Queria ficar magra. O penteado era mantido sempre enrolado e tingido de prateado. Gostava de estar impecável.

Comemorou no último dia 11 de janeiro o aniversário de 90 anos com a mesma alegria de sempre, mesmo mais frágil, conta o neto. No dia 30 de março fez seu último passeio no jardim de rosas. Foi uma despedida. Deixa duas filhas, dois irmãos, sete netos e 12 bisnetos.

Lista de falecimentos - 29/04/2015

Condolências

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