
O gosto pelas aventuras no mar – de vez em quando –, a disponibilidade para ajudar vizinhos e familiares e a habilidade em administrar o dinheiro eram apenas algumas das características marcantes de Celina Mendes Richter.
Nascida em Guaraqueçaba, no Litoral do Paraná, aprendeu cedo a importância do trabalho e do estudo. Descendente de agricultores, Celina sempre gostou de acordar cedo, lá pelas 6h da manhã. Costumava arrumar a casa, cuidar das plantas, visitar os vizinhos e ir à igreja.
“Era o braço direito do pai na roça. No início do inverno, época da lida com arroz, ela ia para a plantação”, conta o marido, Walter Richter. Foi nesse período, no ano de 1960, que eles começaram a namorar. Foram 54 anos juntos.
Walter trabalhava em uma oficina mecânica, em Paranaguá, nos fundos da casa da madrinha de Celina. A jovem iria iniciar um tratamento odontológico nas proximidades e, ao passar em frente à oficina, os rapazes se encantaram. O futuro marido era tímido e, ao ouvir os assobios direcionados a ela, saiu debaixo de um carro e apenas a observou. Foi ela quem deu o primeiro sorriso e pediu para conversar, mas “na frente da madrinha dela, porque naquela época tudo era diferente”, detalha Walter. De conversa em conversa, casaram em pouco menos de um ano.
Foi após o casamento que ele descobriu que Celina gostava de aventuras. “A gente sempre ia pescar. Saímos com a nossa voadeira (embarcação pequena a motor) para a Ilha da Europinha e, chegando perto da ilha, tinha muitas ondas grandes. Ficamos ensopados e eu preocupado com ela. Quando olhei, ela estava rindo da situação”, conta.
A coragem de Celina também surpreendeu o marido quando estava grávida de oito meses e ocorreu uma nova “aventura”. O casal enfrentou uma ventania sudoeste. “Eu achei que ia virar o barco, foi um susto. No outro dia, ela estava bem e já queria ir para o tanque lavar roupa”, brinca.
Assunto sério era o estudo dos filhos. “Ela estudou até a 4ª série, e, dentro do limite dela, ajudava com as tarefas. Sempre nos encorajando a continuar”, conta a filha Ana Lúcia Richter, que é professora.
Outra exigência com a família era a diplomacia. Ninguém podia arrumar confusão; pelo contrário, tinham que manter bom relacionamento e comunicação com todos. “O amanhã a Deus pertence e você pode precisar dessas pessoas”, dizia aos quatro filhos. A boa convivência era hábito de Celina. Os vizinhos que o digam: se uma criança nascia e os pais ainda não sabiam como cuidar, ela trocava fraldas e dava banho. Se outro estivesse doente, ela fazia visitas, levava remédios e as frutas que abundavam no quintal. “Ela não dava espaço para fofocas. Ajudava todo mundo, mas mantinha certa distância se começavam a “tricotar” perto dela”, diz Ana Lúcia.
As plantas eram uma de suas paixões. “Se alguém fazia algo por ela, retribuía rapidinho com um presente. Muitas vezes dava frutas ou uma planta para agradecer”, descreve a filha.
Tudo o que ela queria, tinha que ser “para ontem”. “Se pedisse alguma coisa e a gente ficasse protelando, ela ficava uma arara”, concordam pai e filha. Também ficava brava quando o marido voltava machucado do futebol, “mas nunca me impediu de jogar”, afirma.
Decidiu que nenhum dos filhos viveria de aluguel, e economizou até comprar um terreno para cada um. “Eu trabalhava e ela administrava o dinheiro.Tudo o que temos é fruto desse jeito dela”, elogia Walter.
A determinação regeu seus 74 anos de vida. Em oração, costumava pedir a Deus que não incomodasse os filhos; queria “sair rápido” deste mundo. “Ela caiu e não falou nada para nós. Teve complicações relacionadas a essa queda. Foi tudo muito rápido”, lamenta a filha. Deixa o marido, quatro filhos e oito netos.







