
Se visitássemos a vizinhança de Cirlene Aparecida Gomes, na Rua das Carmelitas, no bairro Boqueirão, não seria difícil encontrar – descansando sobre as geladeiras –galinhas coloridas de madeira e porta guardanapos confeccionados por ela e pelo marido, o marceneiro Joaquim Gomes. Foi num momento de dificuldade que resolveram começar a empreitada: Joaquim estava desempregado e a necessidade de fazer dinheiro era grande. Durante 15 anos, ajudaram a decorar parte das residências do bairro. À Cirlene, além da pintura e do alinhamento minucioso, cabia sair para vender os objetos às pessoas da família e aos vizinhos.
O dom de Cirlene às coisas que exigiam mãos atentas e delicadas estendeu-se ao crochê. Quando ia bater perna pelo Centro, gostava de olhar as vitrines dos armarinhos. Se uma roupa lhe agradasse ou chamasse a atenção, guardava o desenho da peça na memória e tentava reproduzir o bordado. Não usava revista como apoio nem nada. “Era assim, no olho mesmo”, lembra o filho Maicon.
Demonstrava-se não menos compenetrada na religião. Extremamente devota, visitava a Igreja Assembleia de Deus – Areal ao menos três vezes na semana. Membro do coral do Círculo de Oração Filhas de Sião, Cirlene participava de trabalhos voluntários e da Escola Bíblica de Férias (EBL), onde deu aulas de educação religiosa para crianças e realizou outros labores por 11 anos. Suas preferências musicais também foram guiadas pela fé. As preferidas de seus ouvidos eram as cantoras Aline Barros e Cassiane, além de hinos antigos; de vez em quando, alguns hits dos anos 1970 e 1980 desenrolavam-se no rádio da mulher de sorriso marcante e olhos verdes saltados.
Se não estava em casa ou na igreja, era certo que se encontrava na casa da filha Michele para visitar as netas Emanuelle e Sara. Vó dedicada e muito presente, contava também com o carinho e admiração do genro Sérgio – a quem via como filho.
Cirlene deixou Curitiba somente uma vez. E por um período curto. Em abril de 2005, seu irmão Reinaldo – era a segunda mais nova de seis – convidou Joaquim para montar uma empresa de soldagem. Por dois meses e meio, a família fixou-se em Mirassol, município do interior de São Paulo. O negócio acabou não dando certo, mas ela conseguiu mudar, significativamente, a vida de um casal residente da cidade. A partir das preces e das conversas com Cirlene, o marido de Terezinha – Carlinhos – parou de beber e de fumar. Seu discurso persuasivo constituiu uma amizade que perdura até hoje entre as famílias.
Pode-se constatar que Reinaldo foi um dos protagonistas da vida da irmã. O início da relação entre Joaquim e Cirlene ocorreu muito por causa dele. Reinaldo era namorado da irmã de Joaquim e, assim, meio enciumado, Joaquim começou a paquerar Cirlene. Logo no início do namoro, fugiram – o casamento era quase que uma exigência incontornável à época – para a casa da mãe de Joaquim. E, a partir dali, as coisas foram acontecendo.
Deixa o marido, Joaquim; os filhos, Maicon, Lucas e Michele; as netas, Emanuelle e Sara; e o genro, Sérgio.













