
Num páreo aguerrido, disputado centímetro a centímetro, os cavalos cruzam a linha de chegada praticamente juntos. Saber qual o vencedor é praticamente impossível sem o auxílio do Photo finish, tecnologia de imagem que mostra com exatidão o resultado. Décadas atrás, quando o mundo digital permanecia restrito aos filmes “B”, o jeito era apelar às antigas máquinas fotográficas analógicas – e esperar pela revelação dos negativos. A menos que Demétrio Garzuze estivesse presente. Nesse caso, bastava perguntar a ele. Seu olhar apurado não se enganava. Não foi sem motivo que recebeu o apelido de “Flecha Ligeira”, homônimo de um personagem dos western surgido em programa de rádio da década de 40.
Demétrio, entre os amigos e familiares conhecido também como Turco, nasceu na Curitiba de 1940 – mesmo ano de Pelé e Roberto Carlos, como costumava enfatizar. Estudou no Colégio Bom Jesus e ajudava a família nos negócios. Seu pai, Elias, era comerciante, dono de um dos primeiros restaurantes árabes de Curitiba. Aficionado por turfe, Elias foi o responsável por apresentar o mundo das corridas de cavalos a Demétrio. Foi amor ao primeiro páreo.
A dedicação de Demétrio ao esporte passou por diversas fases, desde a criação de cavalos até a narração de corridas. Só no Jockey Club do Paraná foram mais de 55 anos de participação. Ele frequentava o espaço desde a abertura da atual sede, no Tarumã. Parou de ir ao local – com grande dor no coração – quando as corridas deixaram de acontecer, em junho do ano passado.
Seu olhar apurado era requisitado pelas equipes de rádio que transmitiam corridas do Tarumã, que assim não precisavam esperar a confirmação do resultado pelas fotografias para anunciar os vencedores em chegadas complicadas. Junto com os amigos Ary Ayres de Mello Junior e Edson Ruck (já falecido), fez história no turfe paranaense.
Presença quase folclórica, ele era conhecido pelo temperamento extrovertido. Onde quer que estivesse, em poucos minutos tomava conta do ambiente, conversando, falando alto e contando piadas. Não havia quem não o reconhecesse. O coxa-branca roxo também tinha memória extraordinária. Podia repetir sem nenhum erro a escalação do Coritiba nas décadas de 1950 e 1960. E na cozinha não tinha rival: cozinhava com gosto, especialmente pratos árabes e sempre exagerava: se eram 15 os convidados, fazia comida suficiente para pelo menos cem pessoas.
Nos momentos de lazer, Demétrio costumava ler, sempre com qualidade. Entre seus autores preferidos estavam Umberto Eco, Tristão de Ataíde e Jorge Amado. Na música, preferia os artistas da “época de ouro”, como Maysa, Elis Regina, Ângela Maria e Tom Jobim. Mas, claro, a maior diversão para ele era estar em meio às corridas de cavalos, fosse participando como cronista ou mero espectador. Mesmo depois de perder uma perna por causa do diabetes – fato ocorrido há 11 anos –, fazia questão que o filho o levasse até o jockey. “Sua paixão eram os cavalos. Na última vez que estivemos lá, ele fez questão de me mostrar o lugar de onde tinha assistido ao primeiro páreo no jockey”, conta o único filho, Elias.
O amor pelo esporte era tanto que incorporou no dia a dia algumas expressões. Quando desafiado por alguma coisa, garantia estar certo e provocava: “aposto um copo d’água contra um milhão”. O espírito alegre e divertido não dava espaço para queixas. Elias conta que nunca viu o pai reclamar por nada. Nas palavras do filho, comportava-se como uma “rocha”. Mas o diabetes foi debilitando lentamente e retirando os prazeres diários de Demétrio, como a comida sempre bem temperada e a mobilidade de ir e vir. Após a perda do grande amigo Edson Ruck, em 2012, e do fechamento do Jockey Club, se dizia muito cansado. Foi hospitalizado em fevereiro deste ano e, depois de idas e vindas a hospitais, acabou partindo. Deixa o filho Elias, a nora Eliane, e os netos Eduardo e Elise.
Lista de Falecimentos - 11/08/2015
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