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Lista de falecimentos - 13/08/2015

Deomira Constantina Bonato Pereira: servir, acolher e agradecer

 | Arquivo da família
(Foto: Arquivo da família)

Na varanda da casa em que morava no Campo de Santana, em Curitiba, Deomira Constantina Bonato Pereira, ou simplesmente D. Mira, passava boas horas de seu dia. A casa fazia parte de sua vida desde 1947, quando conheceu o marido Francisco, o seu Chico. Há 68 anos sentava na cadeira e olhava atenta para a rua. Esses momentos viraram uma rotina e eram só seus. Se entretinha vendo um e outro passar e dar com a mão em cumprimento. Em resposta, sorria, chamava para um dedinho de prosa e fazia o convite para um cafezinho. A casa antiga mantinha as portas abertas. Era só entrar.

A senhora de cabelinho branco buscava diariamente cumpris as suas missões na vida: servir, acolher e agradecer. Foi sempre dona de casa. Mas entre o tempo que dedicava aos cuidados com as panelas e a lida com os dez filhos, Mira encontrava tempo para ajudar o marido e os vizinhos que viraram amigos. Viu o Campo de Santana se transformar em um bairro e cada morador chegar com os mesmos sonhos dos Pereira. Presenciou o nascimento, crescimento e a morte de tantos outros. Quem precisasse de um remédio, de um prato de comida ou de uma palavra amiga sabia a quem recorrer.

A casa aberta e a mesa farta esperavam os visitantes. Luis Esmanhotto, amigo de longa data, acredita que poucas vezes o casal ficou sozinho. O imóvel localiza-se no centro de um vasto terreno e ao redor das casas dos seis filhos. A família lidou por muitos anos com uma granja. Ao fim do carregamento dos caminhões, os ajudantes sabiam que eram com o grostoli – uma espécie de bolinho de trigo, frito – e o café que finalizariam o dia de trabalho. Recebeu em sua casa e convidou para um almoço até os ex-governadores Ney Braga e Paulo Pimentel, quando estiveram na região divulgando projetos. “E lamberam os beiços”, brinca seu Chico.

Nos últimos tempos D. Mira estava franzina, mas um dia foi uma bela ruiva encorpada – como as mulheres italianas de sua ascendência. Também era a mãe de olhos abertos e ouvidos atentos. “Mas sabia a hora de falar”, pontua Célia. Durante as visitas constantes que enchiam a casa, Mira fazia as vontades de cada um deles. Observadora, era daquelas que conhecia os humores dos filhos somente pelo olhar. Célia conta que perdeu as contas das noites em que a mãe esperou os filhos com o leite quente e a comida no fogão quando ainda eram adolescentes.

Mira tinha resposta para tudo. Quando o então monsenhor Moacyr José Vitti – amigo da família e responsável pela missa dos 50 anos de casados dos pais – perguntou qual era a fórmula do casamento, ela respondeu: “ser cega, muda e surda”. O dito ficou na memória das pessoas e, de quando em quando, alguém se lembrava de chamá-la como “a senhora cega, muda e surda do Campo de Santana”.

Luis também conta que ela adorava viajar. Se havia um convite para pegar a estrada, ela rapidamente arrumava a mala. Em 2012, Mira e Chico convidaram os filhos, noras e genros, Luis e a esposa dele para fazer uma excursão para Gramado (RS). Foi muito divertido e Mira era uma ótima companhia, destaca o amigo, que conheceu o casal durante uma visita ao bairro quando ele era funcionário da Prefeitura de Curitiba. Foram 17 anos de amizade sincera e cuidado de mãe.

Depois de verbalizar para a filha que temia deixar “o seu Chico”, fez o último pedido: ser velada em casa, para que todos pudesses dar adeus. “Você pode rodar o mundo interior, mas não vai achar um lugar tão bom como a casa da mãe”, dizia. Se tanto recebeu visitas enquanto estava viva, não poderia ser diferente durante o velório. Deixa o viúvo Francisco, nove filhos, 50 netos e 31 bisnetos.

Lista de falecimentos - 13/08/2015

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