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Lista de falecimentos - 10/04/2015

Dom João Alves dos Santos: o pai cozinheiro de simplicidade franciscana

 | Débora Mariotto Alves/Gazeta do Povo
(Foto: Débora Mariotto Alves/Gazeta do Povo)

Ao chegar a Paranaguá, no Litoral do Paraná, em 2006, dom João Alves dos Santos chamou a atenção por duas coisas: a voz imponente e a simplicidade. Tornou-se tão próximo das pessoas que os fieis concluíram: “só podia ser brasileiro”. Nomeado bispo pelo papa emérito Bento XVI, ele chegou à diocese com uma difícil missão: substituir o carismático dom Alfredo Novak, com mais de 25 anos de episcopado. Dom João foi o terceiro bispo da diocese, que completou 50 anos em 2012.

A padre Carlimar Holanda conta que a sua ordenação estava marcada para outubro e havia dois bispos que poderiam ministrar o sacramento. “Perguntei a dom Alfredo quem faria minha ordenação e ele disse para eu pedir a dom João. Seria a primeira ordenação dele. Quando perguntei, ele disse: ‘vai ser uma alegria!’”, lembra-se o padre. Em nove anos de episcopado, ordenou nove padres para a diocese.

Aos poucos foi revelando outros talentos: era um grande cozinheiro. “No Natal e na Páscoa, ele sempre fazia questão de cozinhar para todos os padres. Perdemos um bispo e um cozinheiro”, conta Thiago Trigo, o último padre ordenado.

Grande educador, as lições do bispo sempre pendiam para a simplicidade franciscana. Exemplo disso foi a escolha do lema do episcopado: “Como aquele que serve”. Servindo, ensinou e repreendeu. O “filho mais velho”, padre Carlimar, que o diga. Em frente à casa do bispo havia muitos moradores de rua e após um funcionário da Mitra ter o vidro do carro quebrado, todos ficaram receosos. “Na noite de Natal eles pediram comida e eu disse não. Dom João não falou nada. Entrou em casa, fez os pratos, encheu garrafas com suco e levou para eles. Quando voltou, olhou nos meus olhos e disse: ‘é Natal para todo mundo’. Chorei por causa disso”.

O amor ao próximo refletia-se especialmente em duas pastorais: Afro-brasileira e Carcerária. Na primeira, era referência em todo o país. Na segunda, era líder na Regional Sul 2 da CNBB. Por isso viajava muito. Fazia questão de acompanhar os trabalhos de perto.

Para o Jubileu de Ouro da diocese, em 2012, acompanhou desde a preparação estrutural até a entrega dos convites. Da mesma forma que recebia autoridades em sua casa, aceitava a visita de qualquer pessoa. Esse comportamento deixou o seminarista Felipe Assis assustado. “Eu vim de São Paulo e, ao chegar em Paranaguá, disseram-me que eu ficaria hospedado na casa do bispo. Perguntei se eles estavam loucos. Quando chegamos à casa de dom João, ele estava fritando ovo para comer com pão e perguntou se eu queria também. ‘Gema mole ou dura?’, perguntou o bispo, e nós jantamos com ele”. Um tempo depois, Felipe fez o pedido formal, por meio de carta, para ingressar no seminário diocesano e foi aceito. Em dez meses, Felipe se tornou mais um dos “filhos” de João.

Menina dos olhos da diocese, o Santuário Estadual de Nossa Senhora do Rocio teve um grande incentivador. As procissões que acontecem em novembro e recebem aproximadamente cem mil pessoas sempre contaram com a presença e as palavras de fé do bispo, que ia andando com o povo em boa parte do trecho. Depois, subia no carro de som para abençoar a multidão.

A relação familiar sempre foi evidente. A postura de pai aparecia até na hora de mimar os filhos: “ele descobria facilmente do que você gostava e se esforçava para te oferecer aquilo. Caqui, abacaxi, frutas que nós gostamos, não faltavam na casa dele”, relata o padre Carlimar. O líder da diocese de Paranaguá era considerado membro de três famílias: a dele, que era pequena, a dos capuchinhos e a da diocese que liderava.

Já internado no Hospital Santa Catarina, em São Paulo, ele pediu ao padre Carlimar que dissesse ao povo: “estou com saudades”. “Dom João se deixou amar pelo povo”, resume Thiago. Quando recebeu a notícia da internação, Carlimar estava de férias. “Cancelei e vim embora pra cuidar dele. Ele ensinou a cuidar das pessoas”, destaca.

O bispo foi para o hospital para tratar de um quadro de infecção nos rins, mas, desde 3 de abril, o caso se agravou e os médicos optaram por induzi-lo ao coma. Apesar dos esforços dos profissionais, a infecção não pôde ser contida e evoluiu para falência múltipla dos órgãos. Na madrugada de quinta-feira (9), dom João deixou milhares de órfãos na diocese de Paranaguá, além de dois irmãos e sobrinhos.

Dia 09 de abril, aos 58 anos, de falência múltipla dos órgãos, em São Paulo.

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