
Com a mãozinha fechada, a bisneta Flávia, de 5 anos, pedia a bênção para o “biso” toda vez que o encontrava. Emílio Stadler alegrava-se em presenciar o amor, a consideração e o respeito que a família Stadler mantinha por ele. “Ele era um avô para lá de especial”, conta a neta Suelen. Para ele, a família era a sustentação. “Os meus corações”, brincava.
Além de “meus corações”, referência aos netos e bisnetos, o “que maravilha” era outra das expressões usuais de Emílio. Só mudava o tom conforme a gravidade da história. Era um homem simples, do campo, que primava pelas boas relações, comenta a neta. A história dele começou em Guarapuava, no Centro-Sul do Paraná, e passou pelos municípios paranaenses de Pitanga e Campo Mourão. Foi então que escolheu viver definitivamente em Curitiba.
Ganhou o apelido de “Serelepe” no interior do estado devido à miudeza de corpo e à rapidez em fazer tudo. Trabalhou na lavoura e depois se tornou comerciante – comprou uma venda de um tio. Virou empresário bem-sucedido, construiu um patrimônio e conseguiu educar os filhos.
Ao chegar em Curitiba, na década de 1970, desistiu do negócio de ser empresário. Dava muito trabalho. Resolveu vender pastas para guardar documentos de porta em porta. Nunca se arrependeu. O primeiro endereço da família virou o único. A história com o Parque Industrial, próximo ao Quartel do Exército do bairro Pinheirinho, vem de longe.
Emílio não ficava parado – tal qual o apelido de “Serelepe” – e assim seguiu até a velhice. Nos últimos tempos, somou ao apelido de infância o de “Moicano”. Esse foi dado pelos netos em razão dos cabelos brancos que dia e noite viviam espetados. “Adorava!”, conta a neta Suelen, rindo.
Mas Emílio tinha seu lado sério. Não gostava que mudassem nada em casa. Viúvo de Roza desde 1986, mantinha tudo do jeito que estava naquela época. Só trocava alguma peça em casa quando estragava. A bolsinha em que a esposa guardava os documentos ainda continua pendurada na parede do quarto. E na mesinha de telefone, o aparelho ainda se mantém . Nem pensar trocar o fogão à lenha, com um caixote que fazia a função de banco, por um fogão moderno. “Era tradicional”.
Muitos momentos da trajetória de Emílio não foram fáceis, destaca Suelen. Sofreu com a perda de quatro dos dez filhos, da esposa, e ainda de dois netos. Um dos casos ocorreu recentemente. O neto Renato Stadler, policial civil, faleceu no dia 7 de janeiro, aos 40 anos, em um confronto com assaltantes. Emílio ficou muito abalado. Tinha orgulho de ter um neto do Centro de Operações Especiais (Cope). Enchia a boca ao falar de Renato. “Era seu herói”, dizia. Além de avô, Emílio também foi padrinho de casamento dele. A cerimônia ocorreu há cerca de um ano.
Nada mais foi igual para Emílio, mas seguiu gostando de música, flores e perfumes. Ouvia o rádio todo o dia e gostava das músicas antigas, principalmente as caipiras. Também acompanhava a programação da televisão e enchia a casa de flores. Adorava quando os presente de aniversário eram um ramo de flor ou um vidro de perfume. Ele sempre andava bem arrumadinho: de camisa e paletó, sempre social, segundo a neta. Nem para ir ao médico ou para as muitas visitas que fazia aos filhos vestia nada esportivo. Ficava bravo quando o contrariavam e pediam para mudar seus hábitos. No início da noite, já estava deitado e esperava o sono chegar.
A partir dos 80 anos, as festas de aniversário se transformaram em eventos grandiosos. O neto Ricardo era o organizador oficial. O encontro começava no almoço e seguia tarde adentro. Os últimos tinham sido realizados em chácaras.Emílio se divertia ao lembrar do tempo que morou no interior. A festa dos 93 anos aconteceria em 21 de junho e já estava organizada.
Mantinha a lucidez mesmo com 92 anos. Foi ficando debilitado depois de uma cirurgia de vesícula, a qual havia sido submetido recentemente. Emílio cumpriu o que havia prometido no velório do neto Renato. Nos últimos minutos da despedida, ele afirmou: “vai com Deus, meu ‘netão’. O vô já está chegando”. Deixa seis filhos, 24 netos, 33 bisnetos e dois trinetos.
Dia 4 de maio, aos 92 anos, de parada cardiorrespiratória, em Curitiba.
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