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lista de falecimentos - 02/08/2015

Francisco Soares Neto: vida e morte entre palavras

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(Foto: Reprodução)

Eram 21h25 de uma sexta-feira, dia de Santo Aleixo, quando o “relógio” de Francisco Soares Neto parou. Ele subiu ao palco do Teatro Universitário de Curitiba (TUC), na Galeria Júlio Moreira, no Centro Histórico da capital paranaense, para declamar Sangue Violeta, poema de Lia Finn, companheira de vida e de performances – se conheceram num grupo de poesias, em 2011, foi paixão imediata. Francisco pegou uma cadeira, sentou, observou a casa, que estava estranhamente cheia, tirou umas fotografias com o celular, arrumou o microfone, ouviu-a cochichar “você começa”, fez quatro acordes no violão, deu um suspiro, tentou cantar a letra e sofreu uma parada cardíaca fulminante.

O escritor, compositor, educador e artista plástico nasceu em Jaguaribe, semiárido cearense. Gostava de desmontar relógios e carrinhos. Veio para Curitiba aos 12 anos. Nunca mais saiu. Era admirador de Mário Quintana e de literatura simples, cotidiana, natural como fazer pão caseiro, um de seus hobbies, adquirido na época em que o pai foi padeiro no sertão. Também apreciava Manoel de Barros e Ariano Suassuna. Francisco publicou dois livros de poesia: Fragmentos do Ser e Ela Doce Pérola.

Apreciador de música e sempre eclético, ouvia muito Elis Regina, Zeca Baleiro e os repentistas de Olinda. Da paixão pela cultura irlandesa, surgiu o apreço pelo quarteto do The Corrs. Também admirava o indiano Ravi Shankar e o espanhol Paco de Lucía, além de blues, jazz e world music.

O poeta era muito espiritualizado, praticava suas orações diariamente, mas não seguia nenhuma religião. Muitas de suas composições tratavam fé e filosofia cristã. Diabético, colecionava receitas de bolos sem açúcar. Era considerado uma pessoa tranquila, sem rompantes e que se afeiçoava fácil.

Cinéfilo, seus diretores preferidos eram Ingmar Bergman e Luis Buñuel. Fez até uma tela representando a sua fascinação pela protagonista de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Ficou conhecida na capital a performance em que parodiava o “carro do sonho”, num tom de libelo social. Em outro ato cobriu uma estátua da Rua das Flores com papel higiênico.

A relação de Francisco com os animais era singular. Certa vez resgatou um cachorro atropelado na Estrada da Ribeira, perto de Colombo. Encostou o carro e começou a mobilizar outros condutores. Montou uma barreira para o resgate do cão, que estava com uma pata quebrada e a língua presa nos dentes. Carregou-o no colo e levou-o na mesma hora ao veterinário. Lobo teve a pata amputada e acabou adotado pela filha de sua companheira. Era considerado um pai atencioso e muito solícito com os dois filhos do primeiro casamento.

Francisco via a arte pela ótica da militância, como um caminho de mudança, de transformação. Sonhava conhecer Portugal e França. Das viagens, tinha recordações profundas dos dias em que passou na Chapada dos Veadeiros – não gostava do frio mais intenso nem das temperaturas desérticas. Exceto por uma cerveja malzbier de vez em quando, o poeta não bebia. Nem fumava. Deixa esposa, Lia, dois filhos, a enteada, pai e quatro irmãos.

Dia 17 de julho, aos 51 anos, de ataque cardíaco, em Curitiba.

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