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Lista de falecimentos - 17/05/2015

Harved João Schlenker: o artista da loja de couros

 | Arquivo da família
(Foto: Arquivo da família)

O curitibano Harved João Schlenker era homem dado a rotinas. Por mais de seis décadas, administrou o comércio de artefatos de couro Schlenker & Cia., na Travessa Alfredo Bufren, 41, no centro velho da capital paranaense. De segunda a sexta-feira, sempre às 7 horas, estava lá. Tinha de chegar cedo para atender os sapateiros – sua clientela fiel.

Os fregueses conseguiam identificá-lo de longe, mesmo àquela hora da manhã. Chamava atenção. Homem muito alto – tinha 1,90 metro, mas seu físico estoico fazia parecer mais –, usava uma prótese capilar negra, que se destacava quando ele descia de seu inseparável Maverick bronze, ano 1975. O temperamento quase militar completava sua performance. “Ele não fazia o tipo que conta piadas. Uma figura”, define o filho Harvey Schlenker, 56 anos, ao falar do pai. “Harved? Um alemaozão”, resume a viúva Janske Niemann Schlenker, 82 anos, dona Joana para simplificar.

Harved recebeu criação típica de um membro da comunidade alemã. “Era dos Schlenker da Rua Itupava”, como se dizia, para relacionar as famílias com os territórios onde viviam. Tal e qual seus amigos de sobrenome Schmidlin ou Hatschbach, cultivou os acampamentos na Serra do Mar e o alpinismo. Se o tempo estava bom, dizia sentir que o Marumbi, Anhangava ou a Ilha do Mel o chamavam. Da mesma forma que saía antes do sol nascer para ter com sapateiros, madrugava para estar com a natureza. Suas cinzas, a pedido, serão atiradas às águas e às matas do Litoral, objetos de sua paixão.

Nos dourados anos 50, os esportes, a loja e os cuidados com o curtume dos Schlenker enchiam os dias de Harved. Até que recebeu uma visita. Seu nome, Janske. Nascida em Amsterdã, Holanda, morava em Petrópolis, na Serra Fluminense. Em visita a uma parenta de Itajaí (SC), conseguiu guarida na casa dos Schlenker antes de seguir viagem. “Trocamos olhares”, lembra ela. Meses depois, o pretendente batia à porta dos Niemann, no Rio de Janeiro. Queria noivar e casar. Em cartas à namorada, reforçou suas intenções. Em 9 de novembro de 1957, Janske chegou a Curitiba para oficializar as núpcias.

Debaixo do mesmo teto, Janske conheceu um Harved que não era só comerciante, que não era só montanhista. Era também um artista. Por décadas, pintou quase em segredo. Gostava de fazê-lo à moda dos impressionistas, ao ar livre. Montava o cavalete ao pé de uma montanha ou na areia da praia. Só saía dali quando a tela estivesse pronta. Embora tenha frequentado o ateliê de Alfredo Andersen, definia-se como um autodidata. Cultivava os temas paranistas. E diferente de muitos da sua geração, reconheceu o gênio de Miguel Bakun, seu vizinho de bairro.

O anonimato de Harved sofreu um hiato em meados de 1970, quando se viu descoberto pela galerista Nini Barontini. Ela preparou para o pintor desconhecido uma exposição. Para surpresa dele, todas as obras foram vendidas, selando a longa parceria Barontini-Schlenker. “Ele se animou”, contam os seus, mas nada que o apartasse do expediente das matinadas na loja de couros. Avesso às rodas de artistas, não se enturmou. Preferia a solidão e o contato com colecionadores, que com o tempo passaram a procurá-lo na loja de couros. Produzia muito. Se estava em casa, colocava óperas no último volume e fazia de conta que regia orquestras com seu pincel. “Uma touceira no jardim fazia sua alegria”. Havendo sol, entrava no Maverick com os apetrechos de pintura e se mandava.

O estilo personalista de Harved contrastava com o intimismo de Janske – poeta do círculo literário de Helena Kolody. Negociaram boa convivência em 57 anos de união. “Ele me trazia uma flor e ficava tudo bem”. Melhor ainda se estavam ocupados com os filhos Harvey, Emily, Emerson e Adriana. Quando pequenos, o pai lhes contava histórias em capítulos, à beira da lareira. Os argumentos eram originais e se passavam no planeta imaginário Surius. As crianças viravam os personagens das tramas, das quais não faltavam extraterrestres. “No ápice, ele encerrava, deixando a continuação para o dia seguinte. Dava medo”, diverte-se Harvey.

Quando os filhos adolesceram, ralhava com as saídas noturnas. Resolveu a seu modo, transferindo as festinhas da era disco para dentro da grande sala da família. Em grande estilo – havia luz estroboscópica e som de derrubar catedrais. A bordo do Maverick, Harved e Janske faziam o papel de motorista, entregando a moçada para casa. “Foi bom”, resume Janske, ao se lembra dos embalos de sábado à noite na casa dos Schlenker. Deixa viúva, quatro filhos e três netos.

O comerciante Harved Schlenker pintava quase em segredo. Em meados dos anos 1970, foi descoberto pela galerista Nini Barontini, mas aos poucos voltou à escala de produção doméstica,. Os clientes o procuravam na loja da Travessa Alfredo Bufrem, 41. Ali vendia artefatos de couros. E seus quadros. Os temas de Harved são os “paranistas”, denunciando a influência do grupo de Alfredo Andersen, com o qual teve alguma proximidade. | Acervo da família Schlenker

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O comerciante Harved Schlenker pintava quase em segredo. Em meados dos anos 1970, foi descoberto pela galerista Nini Barontini, mas aos poucos voltou à escala de produção doméstica,. Os clientes o procuravam na loja da Travessa Alfredo Bufrem, 41. Ali vendia artefatos de couros. E seus quadros. Os temas de Harved são os “paranistas”, denunciando a influência do grupo de Alfredo Andersen, com o qual teve alguma proximidade.

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