
A curitibana Iamir Pereira de Souza costumava repetir um ritual. Retirava o velho Fusca azul da garagem e se mandava para a Praia de Leste, seu balneário preferido. No banco do passageiro estava sempre ele, o filho Edson Luiz Gomes. Cruzavam juntos a BR-277, não raro com o pé no acelerador. Amava velocidade. Nesses dias, experimentavam o que significa ser feliz para sempre, como ele gosta de lembrar.
Era inspiradora a imagem da senhora negra, alta e magra – porte de realeza com despojamento franciscano – seguindo de mãos dadas com seu eternamente jovem “Chiquinho”, como apelidou Edson, logo que o adotou. O bebê lhe foi deixado por uma empregada. Sem condições de criá-lo, confiou-o, deixando-o na cama da patroa. Espírita, entendeu a cena de manjedoura como um sinal. A relação dos dois foi um belo capítulo de sua longa vida, mas não o único. São três as grandes histórias dessa mulher que se fez mãe adotiva, esportista pioneira e educadora militante. Daí, talvez, os três nomes que usou – Iamir, “Ia” e Selma.
Iamir, a “Ia”, para os seus, fazia o tipo contida. Gostava de estar à sombra. Recebeu educação rígida do pai – um oficial de baixo coturno no Exército, locado no quartel da Praça Ouvidor Pardinho, nas cercanias de onde a família sempre viveu. Um dos poucos luxos da menina do Rebouças era frequentar o Clube Ferroviário. Ali, nas décadas de 1930 e 1940, convivia com crianças e adolescentes negros como ela.
No Ferroviário se deu a equação perfeita: “Ia” descobriu o esporte e foi descoberta por ele. A guria de 1,75 metro se tornou candidata natural aos times de vôlei e de basquete da agremiação. Não tardou a ver seu nome na escalação da casa; e a receber convites para integrar seleções interclubes, junto a outras moças da cidade. O pai, João José, não aplaudiu a novidade. A ideia de uma filha de calção, correndo à vista de todos, era um tabu num tempo em que jovem sozinha nem sequer atravessava a Praça Tiradentes, sob risco de ficar mal falada.
Virou lenda. Para driblar a vigilância paterna, “Ia” teria arrumado um apelido para si: “Selma”, seu nome de quadra. Assim ficou sendo chamada, por força da fama, que veio a galope: ao migrar para o ginásio do Atlético Paranaense e do Coritiba – dois dos espaços que adotaram as nascentes seleções de vôlei e basquete da época – encontrou outras atletas tão talentosas quanto ela. Logo, integrariam o primeiro dream team do estado, formando a Seleção Paranaense de Basquete.
A aventura durou toda a década de 1950, os anos dourados, os anos JK. A experiência lhe garantiu amizades que a acompanhariam até os seus 88 anos. Viajaram juntas pelo interior e pelo país. Tornaram-se confidentes. Mesmo que debaixo dos rigores do técnico Hamílton Saporski – a quem tinham como ídolo – provaram de um cadinho de liberdade.
Até que o sonho acabou. A maioria das cestobolistas, como se dizia, se casou, teve filhos. Selma não – preferiu um namoro platônico com um português, Manoel, com quem por tempos trocou cartas e telefonemas, no melhor do estilo Nunca te vi, sempre te amei (1987), clássico estrelado por Anne Bancroft e Anthony Hopkins. No mais, tornou-se professora de Educação Física, com diploma da UFPR, e passagem pelo corpo docente de instituições de ponta, como o Grupo Escolar Rio Branco, o Colégio Estadual do Paraná e o Colégio Sion. “Era só a gente sair na rua para ela encontrar um ex-aluno”, conta Edson.
Ao abraçar o magistério, Selma integrou outro time – o das mulheres negras que se tornaram educadoras. A galeria de pioneiras passa pela decana Maria Nicolas; por Enedina Marques, professorinha e primeira engenheira negra do país; por Olga dos Santos – que ensinou no Santa Quitéria; por Teresinha Nascimento, do Colégio Lysímaco Ferreira da Costa. Diante do quadro de giz, elas ajudaram a reverter o senso comum de que negros estavam fadados a ser pobres e iletrados.
“Ia” costumava dizer que sua avó foi escrava, mas não partilhava muitas informações sobre a antepassada. O fato é que nasceu num lar que primava pelo ensino, o que sugere a ligação dos seus com a camada mais ilustrada dentre os negros forros do Paraná. Os historiadores costumam destacar que havia um bom número de negros letrados no estado, em 1888, quando finda a Escravidão, desafiando muito do que se acredita sobre o período. No mais, não era dada a falar sobre negritude ou racismo – embora tenha sido condecorada com a comenda Zumbi dos Palmares.
Para a ex-atleta, capitã do time, amiga-irmã e comadre Iverly Lour Silva, 83, Selma era sensível ao preconceito, ainda que tenha se graduado e pertencido à classe média. Seguia estratégias. Tinha por hábito observar os comportamentos a sua volta – privilégio de quem por muito tempo foi a única “mulher de cor” entre os brancos. Numa festa surpresa feita pelas colegas do basquete, quando completou 80 anos, deixou o silêncio, por minutos, e confidenciou: foi a primeira comemoração de aniversário de sua vida.
“Eu a amava”, diz Iverly, com a autoridade de quem sempre esteve a postos para tirar a colega do casulo. Eram como sol e a lua. Iverly, a extrovertida. Selma, a contida. Ao saber da morte da amiga, recolheu-se calada. Não teve nem mesmo forças para ir ao velório. “Passou, mas permanece”, resume Iverly, citando o título do livro de memórias que escreveu. Selma ocupa o pódio desta história, com medalha no peito. Deixa um filho e dois sobrinhos.








