
O poeta Fernando Pessoa escreveu uma vez que “navegar é preciso”. Jayme Guelmann entendia o adágio como poucos. A bordo de um veleiro, ele e a esposa descobriram as maravilhas espalhadas pelos sete mares. Foi deslizando pelas águas profundas embalado pela força dos ventos que ele conheceu a beleza das ilhas gregas, no Mediterrâneo, o azul inigualável do Caribe, o caminho de Paranaguá a Angra dos Reis. Quando estava em terra, o espírito de navegador se revelava na sede por conhecer novas culturas. Era um homem do mundo, como define a esposa Judite.
Nascido em Curitiba, Jayme entrou para a Faculdade de Medicina da Universidade do Paraná em 1949 – a federalização da instituição ocorreu em 1950. Ainda estudante, dava aulas no Curso Oswaldo Cruz, pioneiro na área de preparatórios para o vestibular. Tinha facilidade em ensinar. Era paciente e explicava tudo com cuidado. Não foi surpresa para ninguém ter se dividido entre a atuação como cirurgião obstetra e o ensino de Medicina na UFPR.
Muito dedicado ao trabalho, Jayme fazia questão de estar sempre atualizado. Em 1958, ele passou por cursos e estágios em hospitais da Inglaterra, França, Jerusalém e Áustria. Teve vários artigos publicados em revistas científicas, participava de congressos e seminários no Brasil e no exterior. “Ele era um ótimo profissional. Nunca se queixava dos pacientes. Sempre os atendia bem”, destaca Judite. Em reconhecimento à sua carreia, foi eleito acadêmico honorário da Academia Paranaense de Medicina, participando assiduamente das sessões do grupo.
Nas horas livres, Jayme adorava desfrutar da companhia dos grandes mestres da música clássica. Apreciador da arte, reconhecia aos primeiros acordes os trabalhos de Mahler, Brams, Tchaikovsky e outros compositores de sua predileção. A leitura, em especial de livros de história, era outro de seus passatempos. Fazia de todos os momentos oportunidades para aumentar a bagagem cultural de si mesmo e de seus familiares. Nas viagens, por exemplo, fosse a passeio ou a trabalho, sempre inseria alguma atividade cultural, como uma visita a museus, apresentações de grandes orquestras ou uma peça teatral de destaque. E mesmo nos deslocamentos de táxi, aproveitava para imergir na cultura local ao conversar com os motoristas durante todo o percurso. Detalhe: fazia isso na língua nativa do motorista. Em Londres, conversava em inglês sem sotaque; em Paris, com um francês perfeito. E mesmo sem dominar completamente o alemão, conseguia manter a conversa com os taxistas da Alemanha.
Outra paixão era o jardim. As mesmas mãos habilidosas do cirurgião esbanjavam jeito no trato com as plantas. Gostava de acompanhar as mudanças das estações do ano acontecendo no próprio quintal, com as folhas dos plátanos caindo no outono e as flores cobrindo de cores os canteiros nas primaveras. Fez mudas de rododendro, na época planta rara no país, até para o antigo Banco Banestado. Em outra ocasião, encantado por uma planta na França, fez de tudo para trazer uma mudinha para o Brasil. Escondeu a plantinha na bagagem de mão e de tempos em tempos ia ao banheiro do avião para garantir que receberia água e sobreviveria à longa viagem.
Autodeclarava-se agnóstico, mas ainda assim Jayme costuma pedir orações aos outros e até acompanhava a esposa no curso bíblico que ela frequentava. Sabia respeitar a crença alheia e, acima de tudo, mantinha a mesma gentileza com todos.
Durante anos, à noite, ao perceber que a esposa se levantava, delicadamente acendia a luz para que ela não esbarrasse nos móveis em meio à penumbra. Na noite de 11 de julho, Judite se levantou, mas Jayme não acendeu a luz. Uma parada cardíaca o levou para velejar por outros mares. Deixa a esposa Judite, os filhos Vilson e Salomão, e as netas Alana e Clara.







