
A história de José Roberto Salles até poderia ser uma boa história de pescador, daquelas contadas à beira do rio, causos inverossímeis envolvendo linhas, anzóis, peixes fantásticos e muito riso. E ele sem dúvida não reclamaria, afinal, a pescaria era justamente o que mais gostava de fazer nas horas livres. Era um pescador nato. Saboreava com prazer os filezinhos dos peixes que pescava. Como não poderia deixar de ser, possuía todos os apetrechos necessários para o hobby. Muitos podem não ter ideia da diferença entre um molinete e uma carretilha ou sobre qual a melhor isca a ser usada na hora de fisgar um belo peixe, mas José sabia. A paixão pela pesca era tanta que, junto com um dos irmãos, chegou a comprar um carro só para os dois poderem ir com mais facilidade aos melhores locais para lançar os anzóis.
Nascido em Carlópolis, no Norte Pioneiro, divisa com o estado de São Paulo, José foi morar em Curitiba muito cedo, acompanhando a família. Seu pai, Leovegildo Salles, na época era deputado estadual e precisou ir para a capital paranaense para exercer o mandato. A partir daquele momento, o menino começou a dividir o tempo entre Curitiba e a cidade natal. A estrada entre os dois municípios tornou-se paisagem constante.
Na capital, já na juventude, foi trabalhar no Banestado. Ficou no banco até a aposentadoria. Ainda mantinha contato com os amigos e colegas de trabalho. Era um homem simples e tranquilo, até um pouco tímido, mas nem um pouco sisudo. Ao contrário, era festeiro. A alegria e o bom humor eram uma constante e transpareciam em seu sorriso permanente.
“Ele acolhia quem chegava com um sorriso. Era um paizão para todos”, conta Telma, sobrinha que morou com José durante alguns anos. Esse aspecto acolhedor fez José aplicar na prática o adágio de que “sempre cabe mais um”. Junto com a esposa Rosa, ele abriu a sua casa em Curitiba para os familiares e amigos que precisassem. Eram sobrinhos, primos, amigos dos filhos. Quem precisasse de um lugar para ficar por algum tempo, encontraria no coração – e na casa – do generoso José um espacinho só seu.
Foi assim que surgiram os “filhos do coração”, estudantes que precisam de um lar em Curitiba enquanto concluíam seus cursos e que completavam a família. Eles deixavam o lar de José e Rosa do jeito que eles gostavam – cheio de gente e de carinho. Ele tomava para si a tarefa de ser como um pai para aqueles jovens: com a mesma paciência e carinho dedicados aos filhos, incentivava os estudos, orientava e tentava colocá-los no “bom caminho”, como destaca Telma.
Com a esposa Rosa, com quem ficou casado por mais de 40 anos e teve três filhos, o amor transparecia a cada palavra. Na intimidade do casamento, não eram mais José e Rosa, mas “Zinho” e “Zinha”, lados de uma mesmo moeda. Ela, também natural de Carlópolis, sempre foi conhecida pela beleza e ganhou até concursos de miss na juventude. Não foi sem motivo que o jovem José se encantou com a moça e decidiu compartilhar com ela a própria vida.
Nos momentos livres, não dispensava a leitura, especialmente de suspenses. O norte-americano Sidney Sheldon eram um de seus escritores preferidos. Jogar uma partida de truco com os amigos ou acompanhar o desempenho do time do coração – o Palmeiras – completavam os divertimentos de José. Ele tinha vários mimos alusivos ao clube.
Nos fins de semana, também havia espaço para um bom churrasco. Era um pretexto para chamar a família e os amigos e passar bons momentos juntos. Essas situações e o apoio da família foram fundamentais quando teve de enfrentar o câncer, descoberto em janeiro de 2014. A debilidade causada pela doença levou a uma pneumonia que abreviou os seus dias. Os amigos e familiares ficaram com a lembrança de seu sorriso sempre aberto. Deixa a esposa Rosa, os filhos Cláudio, Ainzara e Roberta, e seis netos.







