
O chimarrão tomado religiosamente – todos os dias nos mesmos horários – e a casa vermelha repleta de artigos alusivos ao “Colorado”, o Internacional (RS), são apenas algumas das heranças que Juraci Borges da Silva trouxe do pequeno município gaúcho de Barros Cassal para o Paraná no início da década de 1960.
A família, que cultivava milho e feijão, resolveu trocar de estado atraída pelo solo paranaense, o qual naquela época já era conhecido e elogiado por sua fertilidade. Mas, antes de chegar a Capanema, no Sudoeste do Paraná, foram três dias de uma turbulenta e inesquecível viagem. “Alugamos um caminhão grande. Havia umas dez pessoas e até vaca, galinha e porco”, lembra a esposa Velfrida, que na ocasião estava grávida de seis meses de Sueli, a primeira filha do casal.
Dois anos depois, Juraci e Velfrida se casaram, e, desta união, nasceram oito filhos: uma parte em Capanema e outra em São Miguel do Iguaçu, no Oeste do Paraná, para onde a família se mudou pouco tempo depois. As viagens de Juraci não pararam por aí, já que conseguiu trabalho em Foz do Iguaçu. Cauteloso, ele preferiu seguir sozinho para a terra das Cataratas e deixou a família em São Miguel. Para matar a saudade, visita os seus a cada 15 dias.
Com o tempo, Juraci foi largando a enxada da roça para trabalhar como carpinteiro, uma vocação que já tinha certa experiência. E a mão-de-obra caiu como uma luva na emergente Foz do Iguaçu, que vivia um intenso crescimento com a construção da Usina de Itaipu. “Muitas casas de madeira estavam sendo construídas em Foz nessa época”, destaca a esposa. A situação financeira era amenizada pela confiança “no fio do bigode”. As compras eram feitas “fiado” e quitadas quando ele chegava com o dinheiro suado do trabalho quinzenal. Dona Jovilina, mãe de Juraci, também ajudava como podia.
Após perceber que a situação estava estabilizada, a família se mudou em definitivo para Foz do Iguaçu. Entre um serviço e outro, surgiu a oportunidade de um trabalho fixo no Clube União Árabe. Juraci começou cortando a grama e limpando as piscinas, mas a confiança dos donos era tanta que logo veio o convite para que ele e a família se tornassem os caseiros do local.
Por 23 anos, cuidar do clube foi a rotina diária de Juraci e de toda a família. O trabalho só parou quando o local passou por dificuldades financeiras. “Ocorriam muitas festas lá. Trabalhávamos dia e noite. As famílias árabes começaram a comprar chácaras e o movimento caiu bastante”, conta a esposa. Com o casal já aposentado, a opção foi retornar à antiga casa – que ficou alugada durante todo esse tempo – para um merecido descanso.
A melhor idade foi aproveitada com intensidade. Juraci não parava quieto. Caminhava bastante, ia para a academia e era presença certa nos bailes da terceira idade de toda a região. Vaidoso, chegou a concorrer ao posto de vovô mais charmoso de Foz. “Tinha 34 camisas e dez calças sociais. Fazia a barba todos os dias e não deixava ninguém tocar naquele bigode”, lembra-se a neta Patrícia.
Religioso, era devoto fiel de Nossa Senhora Aparecida e costumava andar alguns quilômetros para rezar o terço na Igreja São João Batista, a antiga Matriz. Uma obra do destino fez com que falecesse no Sábado de Aleluia, um dos dias que mais gostava. Costumava celebrar a data preparando um churrasco para a família.
Juraci tinha diabetes e hipertensão. Já havia passado por dois procedimentos de cateterismo e também por uma angioplastia. Após oito dias internado, ele faleceu no Hospital Ministro Costa Cavalcanti, em Foz do Iguaçu. Deixa a esposa, sete filhos, 12 netos, quatro bisnetos e dois irmãos.







