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Luiz Fernando Sanseverino Freitas: o dom de ensinar de um biólogo protetor

Luiz Fernando com o muro grafitado em sua homenagem no Colégio Estadual Professor Loureiro Fernandes | Arquivo pessoal/Maria Carolina Sanseverino
Luiz Fernando com o muro grafitado em sua homenagem no Colégio Estadual Professor Loureiro Fernandes (Foto: Arquivo pessoal/Maria Carolina Sanseverino)

Mais velho entre quatro filhos, Luiz Fernando Sanseverino Freitas aprendeu a ser independente desde cedo. Com 12 anos de diferença para o segundo irmão, ajudou o pai de criação e a mãe a cuidarem de Maria Carolina, Otávio e Rodrigo. Essa incumbência provavelmente foi a responsável por despertar no menino curitibano Nando, como era conhecido pela família, o dom que determinou grande parte de sua vida: ensinar.

Professor de Biologia, escolheu começar a carreira na mesma escola em que estudou quando pequeno. O Colégio Estadual Professor Loureiro Fernandes, no Juvevê, recebeu o recém-formado e foi seu segundo lar por 24 anos.

Na escola, seus alunos preferidos sempre foram os “excluídos”. O professor enxergava esses discentes como diamantes brutos que ajudaria a lapidar – pessoas que julgava terem muito potencial e para as quais despendia muito amor e interesse.

Esse comportamento, de se atentar ao que normalmente seria invisível, era algo inerente em Luiz Fernando e se manifestou desde sua infância, a exemplo de um episódio que se tornou uma história inesquecível para toda a família. Por volta dos 12 anos, começou a se ausentar de casa durante as tardes. Preocupada, a mãe do menino descobriu que ele passava esses momentos no terreno baldio vizinho, onde morava uma família de sem-tetos. Ele, muito determinado, explicou que eles eram seus amigos e boas pessoas, apesar das reprimendas da mãe.

Além de notarem o comportamento protetor, os alunos de Luiz Fernando percebiam nele a inovação nas ideias. Quando a rede social Orkut ainda existia, chegou a criar comunidades para as turmas que lecionava, exibia DVDs em sala, mandava matéria por e-mail e até confeccionou ele mesmo algumas apostilas didáticas. Sua paixão pela profissão era tanta que não mediu esforços para disponibilizar infraestrutura adequada para os alunos: comprou, com o próprio dinheiro, de apagadores de quadro a projetores de slides.

Quando foi diretor de turno interino, por volta do ano 2000, promoveu uma ação para valorizar os muros da escola. Sugeriu a realização de um concurso de grafites entre os alunos e os desenhos escolhidos estamparam as paredes do Loureiro Fernandes por alguns anos. Entre os trabalhos, um foi feito em sua homenagem: uma caricatura dele à frente de vários alunos.

Fã do escritor J. R. R. Tolkien, deixou que os livros de fantasia do autor o inspirassem para a vida. Inúmeras edições de “O Hobbit” e da saga “O Senhor dos Anéis” dividiam as prateleiras de sua casa com dezenas de livros de biologia. As obras técnicas representavam seu gosto especial pelo conhecimento científico.

Nascido em 13 de julho, no dia do rock, admirava a banda Pink Floyd e adotou um estilo que remete aos adeptos do gênero musical. Um de seus apelidos, “Homem de Neanderthal”, provinha justamente da aparência: alto, grande e barbudo.

Entre as atividades preferidas estavam os jogos de futebol do Atlético Paranaense, time do qual era sócio ativo. Costumava levar familiares aos jogos. Uma de suas grandes alegrias foi acompanhar o pequeno Ivan, sobrinho de um ano de idade, na primeira partida de sua vida.

Sempre unido com a família, que se reunia todos os domingos na casa da mãe, desenvolveu uma relação de harmonia com os irmãos, a qual foi fundamental quando o pai faleceu, em 2014.

Após essa perda, o estado de saúde do professor – que já não vinha bem desde 2008 – se agravou. Foram várias idas e vindas do hospital para tratar as complicações do diabetes. Partiu em junho. Deixa a mãe, três irmãos e um sobrinho.

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