
Para muitas crianças, o maior presente é poder brincar. E nisso Marcos Vinicius Pilatte foi presenteado durante toda a infância. Cresceu no Sítio Boa Esperança, na zona rural de Campo Mourão, no Centro-Oeste do Paraná. Era livre. Vivia com os pés no chão, pendurado em balanços amarrados em árvores ou se refrescando nos rios. “Ele teve uma infância muito feliz. Era fascinado por animais. Desde pequeno frequentava os currais e aprendeu a tirar leite da vaca”, conta Paulo César Pilatte, pai do rapaz.
Xixo ou Xixão, como era chamado por Marcos Paulo, o irmão mais velho, Marcos Vinicius era tímido, pouco falante, mas sabia conquistar qualquer pessoa. “O meu filho mais velho não conseguia pronunciar Vinicius e o chamava de Xixo. Quando alguém perguntava o nome dele, com um sorriso no canto da boca, ele respondia com o apelido e isso já ganhava a pessoa”, relembra o pai.
Pouco antes de completar 10 anos, o caçula da família passou a frequentar uma fazenda vizinha. No início era apenas para admirar os animais, especialmente os cavalos – que a família dele não possuía. Não demorou muito para cativar o fazendeiro, que o ensinou a vacinar, separar e cuidar dos animais. De brinde, aprendeu os segredos da montaria. O pai diz acreditar que naquele momento o futuro do filho começou a ser delineado.
Outros interesses foram surgindo nos anos seguintes, como o motocross, mas nenhum deles fez com que descuidasse do sítio e dos animais. Nos fins de semana, Marcos Vinicius deixava o gado para ouvir o motor potente da motocicleta. “Era um passatempo. Ele adorava sentir doses de adrenalina sendo despejadas nas veias, mas confiávamos nele. Sempre foi muito responsável.”
Logo que se formou no Ensino Médio, fez cursos na área ambiental e de mecânica de carros e motos. Há dois anos entrou na faculdade e estudava Tecnologia e Gestão Ambiental. Já neste ano ele poderia trabalhar tecnicamente com a terra e ainda melhoria os ganhos na horta da família.
Mesmo com a vida corrida, ele arrumava tempo para acompanhar os treinos dos peões da Companhia de Rodeio MM. E como sabia montar desde criança, insistiu para que prestassem mais atenção nele. Todas as noites, antes de dormir, rezava para Nossa Senhora Aparecida – de quem era devoto – e pedia para ser escolhido como profissional. E as preces foram ouvidas, conta o pai. A destreza em cima do animal logo chamou a atenção do grupo. Há dois meses, Marcos Vinicius realizou o sonho: foi chamado para integrar a companhia.
O pai se emociona ao contar como o jovem recebeu a notícia. “Foi a maior realização para ele. Nós ficamos assustados, justamente por ser um esporte perigoso, mas ele me disse: ‘pai, você é meu amigão e sabe que esse é o meu sonho. Imagina chegar na arena e o narrador falar meu nome? Isso vai ser tudo para mim’”.
A partir daquele dia, os treinos com os cavalos e touros passaram a fazer parte da rotina do mourãoense. A primeira apresentação seria em 12 de julho, durante a Festa Nacional do Carneiro no Buraco, em sua cidade natal.
Contando os dias, o peão só queria saber de comemorar. Em 20 de junho, um sábado, chegou em casa com um bolo nas mãos. O agrado era para comemorar, antecipadamente, o aniversário da mãe, Rosemaria, que seria três dias depois. “Ela ainda questionou, mas ele disse que a festa era naquele dia”, comenta o pai.
Na manhã seguinte, o céu parecia mostrar à família que o brilho de Marcos Vinicius começaria a se apagar horas depois. “Foi um dia cinzento, ficou nublado todo o tempo. Ele tinha que treinar, mas não estava com vontade, o que não era normal. Só foi porque era dedicado”. Logo após o almoço, o rapaz e o pai saíram a caminho da cidade. Paulo ficou na casa do outro filho, enquanto o peão seguiu para Barbosa Ferraz, cidade próxima, onde aconteceria o treino. Por volta das 17 horas, a família foi informada de que o caçula havia sofrido um acidente na arena. Ele ficou enroscado na corda no momento de descer do touro e foi pisoteado pelo animal. Às pressas, Marcos Vinicius foi encaminhado para a Santa Casa de Campo Mourão, mas não resistiu aos ferimentos e morreu três dias depois.
A capela ficou pequena para receber tantas pessoas que desejavam prestar a última homenagem ao jovem. A mãe, ao lado do caixão, foi surpreendida ao receber de alguns diretores da faculdade o diploma do filho em Tecnologia e Gestão Ambiental. O rapaz iria se formar em agosto. Deixa pai, mãe e irmão.







