
A austeridade do pai marcou os primeiros anos de Maria do Carmo Silva, vividos em uma fazenda em São Pedro da União, no Sul de Minas. Desde menina ela trabalhava muito, encarregando-se de tarefas pesadas. Mais tarde, contaria aos filhos, com orgulho, que seu pai dizia aos amigos que não trocaria o trabalho da filha miúda pelo de um homem adulto.
A escola estava muito longe e por isso ela e os irmãos tiveram um professor particular. O mestre ia até eles para ensinar matemática e português. Os raros passeios tinham a ver com a religião; eram missas e procissões nas datas especiais. Por tudo isso, não é de se estranhar que Maria do Carmo tenha decidido ser freira. Os planos já estavam feitos, mas o pai não a quis longe de casa e, para não contrariá-lo, ela desistiu.
A mudança para o Paraná junto com os pais e os irmãos aconteceu na época em que a região Norte do estado recebia grandes levas de migrantes. Instalaram-se em Araruna, então um povoado. Ali, ela fez um curso de corte e costura por correspondência e passou a trabalhar como costureira. Era tão habilidosa e detalhista que se tornou capaz de fazer qualquer tipo de roupa, de vestidos de festa a camisas masculinas. Gostava de costurar peças delicadas, com muitos detalhes. Era econômica: todo retalho era aproveitado para fazer as roupinhas das filhas pequenas.
Em Araruna, casou-se com Vicente Caetano da Silva, funcionário do Banco Bamerindus e mineiro como ela. Tiveram seis filhos. Maria do Carmo parou de trabalhar para cuidar de sua tropa e para acompanhar o marido nas transferências pelo interior do estado. Moraram em Umuarama, Peabiru, São Mateus do Sul e Imbituva, antes de se instalarem em Curitiba.
Talvez por herança daquela austeridade com a qual cresceu, ela foi sempre uma pessoa sem frescuras, que não gostava de sair, ainda que vez por outra desfrutasse de peças e shows, para os quais era levada pelos filhos. Cuidava da saúde fazendo caminhadas rápidas pela vizinhança. Recebia os amigos dos filhos e os parentes com um bom humor sereno, tranquilo. Ouvia muito e falava pouco.
Nos últimos 14 anos, a doença de Alzheimer a tornou ausente, roubando de seus familiares as acolhidas carinhosas no apartamento da Visconde de Guarapuava e a chance de ouvi-la cantarolar velhas canções enquanto costurava. Deixa seis filhos, 11 netos e quatro bisnetos.







