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Lista de falecimentos - 13/10/2015

Marina Baird Ferreira: a dama dos dicionários

 | Arquivo da família
(Foto: Arquivo da família)

Não seria exagero dizer que a língua portuguesa era a vida de Marina Baird Ferreira. Tinha verdadeiro amor ao idioma fosse ele falado ou escrito. Sempre com papel e caneta em punhos, grifava, anotava e mais tarde pesquisava palavras desconhecidas. Amava sotaques e expressões regionais. Quando vinha a Curitiba, por exemplo, encantava-se com termos como vina e piá, típicos da capital do Paraná. Estava sempre atenta ao que de novo surgia no “curitibanês” e em outras particularidades de todo o Brasil.

Os livros ocupavam quase todo o dia de Marina. Das 8 horas até as 16 horas ficava em meio aos exemplares no escritório montado em casa. Quando não estava trabalhando continuava cercada pela leitura. Não tinha um fronteira definida entre hobby e compromissos profissionais. Enquanto lia por prazer, anotava para mais tarde pesquisar para o trabalho. Era assim desde que se casou com o Professor Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, em 1943. O professor, para organizar o famoso dicionário que carrega o próprio nome, tinha a mesma rotina: lia tudo e anotava o tempo inteiro. A “mania” e a função de Aurélio passaram para ela após o falecimento do professor, em 1989.

Quando jovem, a linguagem que mais ocupava a cabeça da paraense eram os números. Atuava como contadora e estatística da sede brasileira do Banco de Londres. Trocou os números pelas letras quando virou assistente do marido. Pela rotina intensa de trabalho com o dicionário, tornou-se lexicógrafa na prática. De coordenadora e editora, passou também a autora. Escreveu, em parceria com Margarida dos Anjos, O Aurélio com a Turma da Mônica, dicionário que apresenta às crianças o mundo das palavras escritas.

Marina nasceu em Belém do Pará, morou no Amazonas, no México e mais tarde no Rio de Janeiro, onde se estabeleceu.. “Ela era uma verdadeira lady”, como lembra bem a amiga Valéria. Sempre educada ao conversar com todos, falava muito bem. Quando precisava, não dominava somente o português, mas também falava inglês, francês, espanhol e um pouco de alemão.

Além da boa educação - passada aos filhos Aurélio e Maria Luísa - também tinha a elegância. Se vestia sempre muito bem. Cabelos bem penteados e sempre arrumados. Além das roupas, estava sempre com belos colares, brincos e anéis. Era assim todos os dias, mesmo trabalhando em casa, vestia-se como se tivesse que ir à uma reunião de negócios.

A rotina também era marcada por exercícios na beira da praia. “Era como uma formiguinha, nunca estava parada. Trabalhou e se exercitou até o os últimos dias”, conta Valéria. Gostava da natureza, mas era mesmo uma pessoa urbana. Amava a cidade, prédios e toda a agitação que ela oferecia. Combinava com o espírito sempre ativo da paraense.

Com os dois filhos, os cinco netos e os três bisnetos tinha uma ótima relação. Os programas quase sempre eram os mesmos. Recebê-los em casa. As visitas eram frequentes, com almoços, jantares e sempre boas conversas. Marina também tinha muitos amigos, de quem também recebia visitas. Ia com certa frequência à Academia Brasileira de Letras, na qual o marido era um dos imortais. Lá fez boas amizades e foi sempre muito bem recebida.

Há alguns anos ampliou os horizontes do português também para a filosofia. Lia diversos estudos sobre o assunto e conversava com frequência sobre eles. Fazia parte de um grupo de discussão filosóficas no qual se reunia para debater o que lia. Era conhecida por não ficar em cima do muro. Gostava de se posicionar sobre os assuntos.

Aos 93 anos, Marina estava começando a sentir um pouco de fraqueza. Não tinha problemas sérios de saúde. Faleceu devido a uma parada cardíaca no dia 27 de setembro. Deixa os filhos Aurelio e Maria Luísa, os netos Pedro Antônio, Mariana, Fernando, Marina e Júlia e os bisnetos Sofia, Joaquim e Antônia.

Lista de falecimentos - 13/10/2015

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