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Lista de falecimentos - 12/08/2015

Mario Fernando Correia Vargas: as sete janelas do casarão da Rua 13 Maio

 | Arquivo da família
(Foto: Arquivo da família)

O contador, economista e advogado Mario Fernando Correia Vargas era um homem de muitas lembranças e experiências. O casarão da Rua 13 de Maio era a mais emblemática. A importância de cada uma das janelas em sua vida – sete no total e que davam para rua – rendeu um texto até então guardado. No papel amarelado, escrito com uma caneta tinteiro, ainda é possível definir o então jovem de 24 anos que ainda mantinha pelo velho casarão tristes e alegres lembranças. Nas traçadas linhas, ele pontua os dias de festas, a angústia das perdas, os “anjos” de sua vida em forma das mães postiças, a chegada depois de noites de boemia e as tardes em frente ao rádio. Com a morte prematura da mãe, a cantora de ópera Maria Joanna, poucos meses após o parto, o menino foi viver com as três tias maternas. “Feliz daquele que pode como eu recordar e viver novamente as páginas de sua vida; lembranças associadas a um velho casarão”, destaca. O número sete o acompanhou durante a vida.

Mas, segundo o filho Fernando, o pai não era de saudosismos. Pelo menos não demonstrava. Era inquieto em manter as experiências vividas e encontrar novas. Dos 18 aos 81 anos foi apaixonado pelo motociclismo. Tanto é que mantinha uma moto esportiva na garagem e a rotina de passeios com amigos.

Aprendeu a tocar violino em apenas dois anos – resquício da musicalidade da casa das tias – e passou integrar a orquestra da UFPR como segundo violinista. Viajou com o grupo por 20 anos e, na década de 1980, resolveu fechar o estojo e deixá-lo em um canto. Não tinha mais fôlego para a música.

Na vida profissional, Mario Fernando dedicou-se ao setor bancário. Aos 14 anos, assumiu o cargo de escrevente no Banco Banestado graças ao precoce talento com as palavras. E, ao longo das décadas, foi buscando seu espaço. Chegou a diretor financeiro e conselheiro do banco. Após a aposentadoria, passou para a área do Direito e prestava consultoria financeira a diversas instituições, entre elas a Açúcar e Álcool Bandeirantes. Também conseguiu aproveitar mais a vida com sua Heloísa, para quem em um dia na juventude fez uma serenata junto com o amigo Affonso Camargo, que viria a ser político. Eram os áureos Anos Dourados.

Mario Fernando e Holoísa, professora e pintora, tratavam-se como namorados e foi assim por 60 anos. O filho conta que os pais conheceram o mundo em viagens pela Europa, Ásia e Américas. Paisagens bonitas foram o incentivo para ele se transformar em um fotógrafo amador. Chegou até a fazer uns “bicos” em casamentos.

De engraçado, mantinha o apelido de Bota, recebido ainda menino, por gostar de estar sempre com o calçado. Era sua marca registrada. Fora a alcunha característica de sua vestimenta bem aprumada, nenhum outro apelido pegou na adolescência e fase adulta. Há quem ensaiou outro quando a careca surgiu, mas não pegou, brinca o filho. Era Mario Fernando que dava os apelidos, utilizando-se de um humor sarcástico. Uma das expressões lembradas pelos filhos era de quando o pai via um bêbado: “esse tá caçando galo”. Como não podia ver ninguém parado, repetia para os filhos a expressão em latim Dormientebus jus non succurit, que significa “aos que dormem o direito não acode”.

Aos 81 anos, fez sua última viagem de moto para Morretes, no Litoral do Paraná, no Dia dos Pais do ano passado. Assim como fez com o violino, também não tinha mais preparo para as excursões. Mas não parava quieto; e muito menos tinha medo da morte. Como lembra o texto de Santo Agostinho de que tanto gostava, “ a morte não é nada. Eu somente passei para o outro lado do Caminho. Eu sou eu, vocês são vocês. O que eu era para vocês, eu continuarei sendo.”

Fez das sete janelas do casarão as sete experiências marcantes dos 82 anos de vida como contador, economista, advogado, bancário, violinista, fotógrafo e motociclista. Deixa a esposa, Heloísa, os filhos Marcelo, Mariliz, Márcia, Fernando e Mário, e 12 netos.

Lista de falecimentos - 12/08/2015

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