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obituário

Maurício Schewinski: um jovem guerreiro e sonhador

 | Arquivo da família
(Foto: Arquivo da família)

Quem conhecia Maurício Schewinski fora do ambiente familiar não fazia ideia de como ele era em casa. Reservado, Maurício era enfático ao expor sua opinião, além de não deixar escapar nenhuma ação à sua volta. Talvez seja por isso que a mãe, Neida Schewinski, suponha que todas as decisões de sua vida foram muito particulares. “Em casa era birrento, mas eu ficava boba como ele era parceiro dos amigos. Qualquer hora era hora para churrasco”, conta. “Ele gostava de se fechar e pensar.”

O carinho exacerbado não era seu forte, mas não deixava de expressá-lo, da sua forma. “Quando acontecia alguma coisa, ele já pedia para a gente sair ou dava um jeito de ficar sozinho. Mas, lá fora, eu sabia do seu amor pela gente”, comenta a mãe. “Teve uma vez que uma amiga dele veio aqui em casa e disse que “ele sempre falou que tinha a melhor mãe do mundo”. Esse era o Maurício”, brinca.

Apesar de seu jeito reservado com a família, Maurício não deixava escapar a afeição por crianças. A vontade de ser pai não era algo distante dos sonhos do rapaz, mas os remédios e os intensos tratamentos contra o câncer não o permitiam mais realizá-lo. A solução foi bem simples, adotar uma filha peludinha. “Ele dizia: “eu tenho filha, sim: a Nina, de quatro patas”, brinca a mãe. A shih-tzu se tornou uma companheira e tanto para Maurício. Assim como as sobrinhas, suas paixões. “Para onde ele fosse, trazia uma lembrança para elas. Sempre estava junto, queria estar perto.”

O paredão sólido, quase impenetrável, escondido atrás de um homem corpulento era uma defesa que aprendeu desde muito jovem. Com 22 anos, recém-contratado por uma financeira em que sempre almejou uma vaga, foi diagnosticado com câncer. “Ele me ligou naquele dia e disse: “mãe, estou com câncer, que loucura”. Depois tivemos que chamar uns amigos para ir falar com ele, que se fechou em seu apartamento”, lembra a mãe.

Levou alguns meses para a ficha cair, mas depois Maurício aprendeu a conviver com o diagnóstico e a financeira em que trabalhava fez questão de mostrar a importância dele. “Ele ia para os exames em Curitiba e o pessoal da empresa deixava o carro para que ele saísse logo. Eles não davam o carro para qualquer funcionário. O emprego ajudou muito”, conta Neida.

Nenhuma tarefa era difícil demais para ele. Conseguiu o emprego que queria e logo subiu de cargo. As promoções ocorreram em poucos meses e a aparência acompanhava toda ascensão. “Ele era bem vaidoso. Passou por várias sessões de quimioterapia e não gostava de perder cabelo. Para compensar, andava sempre com roupas boas”, conta Neida. “E o perfume?”, questiona o pai Norberto. “Esse era marcante”, conta.

Maurício ficou por alguns anos na financeira como gerente. O pai já havia trabalhado para a mesma empresa, após se aposentar da profissão de bancário, só que era terceirizado. O jovem sonhava grande, queria mais para a carreira profissional e foi o posicionamento firme que chamou atenção da administração municipal de União da Vitória. “Foi pela rede social. Ele opinava sobre aquilo que achava certo e errado e isso independente da pessoa”, fala Neida.

O funcionário da financeira passou para a vida pública sem ao menos ter contato com a política. O prefeito convidou Maurício para ser chefe de gabinete e, depois, preencher a vaga de Secretário de Saúde de União da Vitória. Toda a bagagem no tratamento com o câncer se tornou um currículo extenso para conseguir se manter no cargo. A evolução da pasta foi notada rapidamente. Não era raro encontrar Maurício sentado ao lado de pacientes na fila de um pronto atendimento. As burocracias do sistema público de saúde pareciam não fazer parte do seu ritmo de trabalho. “Ele atendia todo mundo que chegasse para falar com ele. Era um guerreiro. Tinha um conhecimento que resolvia tudo; era um telefonema e pronto”, elogia a mãe. “E ele não era de estudar, chegou a ser convidado a sair da escola quando era piá porque não participava das atividades. Tudo o que aprendeu foi com o emprego e com os tratamentos. A vida ensinou tudo para Maurício.”

Essa persistência seguiu com o secretário em toda sua trajetória. “Ele não admitia ficar mal. Lá fora era uma rocha. As pessoas perguntavam e ele respondia que estava tudo bem. Mas quando chegava em casa no final da tarde, pedia para que eu o ajudasse a sair do carro. Saía e caía no sofá; estava exausto”, conta. “Ele nunca se queixou para nós. Acho que não queria parecer fraco e por isso insistiu em tudo. Sonhava grande, queria sempre do melhor, desfrutar da vida”.

Após de dez anos de tratamento contra a doença, Maurício faleceu em casa, junto dos pais e de sua filha de quatro patas, Nina. Deixa pai, mãe, um irmão, cunhada, duas sobrinhas e a cachorrinha Nina.

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