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lista de falecimentos - 18/09/2015

Nelson Costa Claro: a vida nos trilhos

 | Arquivo da família
(Foto: Arquivo da família)

O apito soava distante e já era possível avistar o cone de fumaça subindo em direção ao céu. Em pouco tempo, os trilhos tremiam e o trem chegava à estação. Essa sequência foi vivida por Nelson Costa Claro durante 35 anos, período em que ele trabalhou na extinta Rede Ferroviária Federal, em Maringá, no Noroeste do Paraná. Paulista de Avaí, chegou à “Cidade Canção” com a mulher, Dahilde, e três filhos, depois de uma rápida passagem por Sarandi, município vizinho, onde aprendeu o ofício de serralheiro.

A oportunidade como ferroviário deu a ele o primeiro e único registro na carteira de trabalho, garantindo o sustento da família que logo aumentaria – e muito. Ao todo, 12 filhos nasceram. Com a casa cheia, Nelson não podia se dar ao luxo de dispensar as ofertas de horas extras e trabalhava de sol a sol. Por isso passava pouco tempo com as crianças. Mesmo assim, mantinha a rédea curta, conta Cida Claro, uma das filhas de Nelson.

“Ele chegava do trabalho e assoviava antes mesmo de entrar em casa. Aquele era o sinal para encerrar a brincadeira na rua e ir para dentro”. Mesmo passando pouco tempo juntos, todos se viam praticamente o dia inteiro. O quintal da casa deles era o pátio da ferrovia. Bastava esticar o pescoço, espremer os olhos e lá estava o pai trabalhando a todo vapor.

A recompensa por tanto esforço era dada uma vez por ano, quando todos da família viajavam para visitar parentes no interior paulista. “Como meu pai era funcionário, não pagávamos passagem. Viajamos muito”, relembra a filha.

Com dedicação e mais experiência, o funcionário exemplar também foi galgando novos cargos até se tornar chefe de estação. Ele era apaixonado pelo trabalho e afirmava que só largaria o posto depois que a idade chegasse. E, de fato, nenhum motivo o fez mudar de ideia, nem mesmo a triste tarde em que ele perdeu um dos filhos no local de trabalho. Adelson, o terceiro filho, havia levado o café da tarde, assim como era feito diariamente. Na hora de retornar para casa, parou para brincar nos trilhos e foi atropelado por um trem. “Aquilo marcou muito, mas ele não desistiu e superou”, afirma a filha.

Outro episódio também marcou a trajetória do patriarca na estação ferroviária. Em maio de 1957, durante uma apresentação da Esquadrilha da Fumaça, um avião caiu sobre a caixa d’água da estação – a poucos metros do posto de trabalho de Nelson. Com a explosão, o piloto e o copiloto morreram. O susto deixou Nelson de cabelo em pé durante muito tempo.

O chefe da estação se aposentou no início da década de 1990. Ele e a mulher, então, mudaram para o Conjunto Borba Gato, um dos mais antigos e populosos da cidade. Com saúde, passaram a desfrutar da justa tranquilidade da terceira idade. “Ele aproveitou para curtir. Viajou muito com a minha mãe, até mesmo de avião, depois que o medo passou”.

A estação foi desativada no início dos anos 2000. No local, começou a crescer o Novo Centro de Maringá. Cida conta que os olhos do pai demonstravam um misto de tristeza e de saudade quando passava no antigo local de trabalho.

Os dias do ex-ferroviário começaram a ficar mais tristes em 2009, quando a companheira fez uma viagem sem volta. Outros três filhos também faleceram nesse período. Há dois anos teve um câncer na bexiga, mas se curou após uma cirurgia. Morando sozinho, por opção, continuou cuidando da casa e recebendo a “filharada”, com netos e bisnetos. “Ele se mantinha ativo. Chegamos a ir de excursão para Itapema [no Litoral catarinense]”, relembra-se Cida.

Em outubro do ano passado, o quinto filho de Nelson morreu. Com mais uma perda, o patriarca sucumbiu à tristeza e entrou em depressão. Em fevereiro deste ano, o câncer voltou e evoluiu para metástase. Fraco e já sem se alimentar, foi internado no Hospital Santa Rita, em Maringá, em 3 de julho. Faleceu no dia seguinte. Deixa sete filhos, mais de 40 netos, 24 bisnetos e um trineto.

Lista de falecimentos - 18/09/2015

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