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lISTA DE FALECIMENTOS - 02/09/2015

Olguina Cemin: a gaúcha que criou um dialeto próprio

 | Arquivo da família
(Foto: Arquivo da família)

“Vai arrumar a “gadeia” [cabelo]. Depois me traga o “tabiél’ [tábua de cortar carne] e me ajuda a “brasquear” [espalhar a brasa] na churrasqueira. Enquanto isso, vou “quentá” [esquentar] a água do meu chimarrão”. Essa é uma pequena mostra do dialeto próprio criado por Olguina Cemin, a dona Olga. Vai deixar saudades.

Nascida em Cachoeira do Sul, passou parte da juventude em Tenente Portela – ambas no Rio Grande do Sul. Ela desembarcou em Foz do Iguaçu, no Oeste do Paraná, em junho de 1966, poucos meses depois de se casar com Anildo. Na viagem de caminhão, o trajeto de 460 quilômetros foi percorrido em cinco dias na companhia do marido e seus familiares.

Assim como no Rio Grande, a lida diária de Olga também era no campo no Paraná. Ajudava na agricultura – cultivava feijão, milho e mandioca – e na pecuária – na criação de gado, suínos e aves. Enquanto a família era construída na região do Lote Grande, a primeira residência foi improvisada no local em que atualmente está localizada a sede do tradicional CTG Charrua.

O casal teve quatro filhos – Sueli, Arildo, Noeli e Amildo – entre 1967 e 1972. Quando a família já tinha crescido, Anildo decidiu largar a agricultura para ganhar a vida como caminhoneiro. Eles se mudaram para a região da cidade ainda pouco habitada. “Não tinha luz nem asfalto. Era tudo muito precário”, conta Anildo. Sempre que podia, lá estava Olga acompanhando o marido nas viagens que fazia por todo o país. “Ela ensinou muito cedo a cuidar dos irmãos, cozinhar e costurar”, recorda-se Sueli.

Além do dialeto próprio, a risada alta e o bom humor rotineiro também eram características marcantes de dona Olga. Ela adorava contar causos.

Sem acesso à educação na infância, foi com determinação que voltou a frequentar os bancos escolares em 1998. O objetivo principal era aprender a ler, o que conseguiu com perfeição. “Quando chegava uma correspondência, ela ia toda faceira abrir. Já podia ler sem a nossa ajuda”, conta Noeli. Alfabetizada, também conseguia organizar os horários das consultas e medicações.

A gaúcha também aprendeu tudo sobre os efeitos das mais “milagrosas” ervas medicinais. Para problemas estomacais, recomendava boldo; para vermes, hortelã; e para o bebê recém-nascido, a dica era o poejo. Algumas dessas ervas eram colhidas em sua própria horta, onde tudo era cultivado com muito carinho e sem uma gota de agrotóxico.

Nas redondezas do bairro, Olga era conhecida como uma pessoa religiosa e sempre disposta a ajudar. Costumava visitar os doentes, seguia a pé para as missas na Igreja do Perpétuo Socorro e frequentemente era a anfitriã de novenas e reuniões do grupo de família.

A fartura na cozinha era uma das características marcantes dela e rendeu até o apelido de “Vó Gorda” entre os netos. O doce preferido era gelatina com “pesco” [pêssego].

Apesar da distância, nunca deixou o contato com a família no RS se perder. Sempre que podia, viajava para lá e levava cestas básicas e roupas aos parentes mais necessitados. “Ela adorava ir ao Paraguai fazer compras e sempre deixava um estoque de coisas para doar”, lembra-se Anildo.

Olga partiu em consequência de um enfarte fulminante. Deixa o marido, quatro filhos, dez netos e nove irmãos.

Lista de falecimentos - 02/09/2015

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