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lista de falecimentos - 27/05/2015

Orlandina Godói de Lima (Hollanda): o caldinho de feijão e os chás que curavam tudo

Orlandina Godói de Lima, a  Hollanda | Arquivo da família
Orlandina Godói de Lima, a Hollanda (Foto: Arquivo da família)

Ela nasceu Orlandina Godói de Lima, mas tomou para si o nome de Hollanda por ter uma sonoridade parecida com aquele recebido pelos pais. Não gostava de se chamar Orlandina. Muito divertida contava que a mãe, Rita, tinha lhe dado o nome de propósito, pois queria um filho homem. Sem a certeza, ela trocou de nome e deixou a brincadeira nos relatos da história familiar dos gaúchos de Machadinho, pequeno município do Rio Grande do Sul. Era simples e sorridente. Achava que tudo se curava com caldinho de feijão, laranja ou chás de ervas. Se não, avisava: “passa salmoura que isso aí desaparece”. Servia até para tristeza.

Foi mãe de seis filhos, mas perdeu Cipriano ainda em solo gaúcho. Teve uma vida dura, relembram os netos de tanto ouvir os relatos da avó. Eles contam dos dias que Hollanda andava quilômetros para vender limão caipira no centro de Machadinho para sustentar a prole. Era o único bem que tinha no quintal de casa, sem contar com a velha máquina de costura da marca Elgin, preta, com pé de ferro e baú de madeira, que também contribuiu para reforçar o orçamento familiar. Nos momentos bons, tinha fila para as encomendas de roupas sob medida. Mas, nos tempos ruins, dava graças por ter batatas para o almoço. O marido, Luis, foi embora para o Mato Grosso, na década de 1960. Só os filhos mais velhos lembram do progenitor.

Em 1989, veio morar definitivamente em Curitiba. Antes, eram longos passeios em visita aos filhos em Curitiba. Durante o tempo que Ivone morou em Santos (SP), Hollanda também passava longas temporadas no litoral paulista. Quando a família da filha se mudou para a capital parananese, Hollanda veio junto e foi morar no andar de cima da loja Raridade Discos, na Rua Visconde do Rio Branco. Dessa época, a neta Alyssa lembra-se do cheirinho da carne de panela quando chegava da escola. Por muitos anos, a avó trabalhou em cozinhas como a do Hotel Rui Barbosa, no Centro, e de restaurantes, como o Madalasso, em Santa Felicidade

Para Alyssa, a avó tinha o melhor “cheirinho” do mundo. “Encostava a cabeça no seu ombro e cheirava o pescoço dela. Quase dormia.” Para ela, era um cheiro de tranquilidade. Em caso de qualquer problema, Hollanda tinha uma dica de chá. Gengibre era bom para garganta; hortelã, para o estômago. Ultimamente, a casa cheirava a manjericão. Na lembrança estão o cheirinho do pão, do barulho da máquina de costura e o “tec tec” das agulhas de tricô tecendo alguma peça para dar de presente. Nos últimos tempos, ela foi parando com suas rotinas. “Não percebi o tempo passando. Nunca achei que ela ia ficar velhinha”, admite a neta.

Na casa da avó não faltavam pães, bolos, biscoitos, frutas e, para a alegria dos netos, o refrigerante, do qual Hollanda passou a gostar nos últimos anos. Não foram poucos os domingos e feriados de reuniões e confraternizações na casa do São Braz. A comida era um elo e uma mostra de carinho. O risoto de frango, a berinjela à milanesa, o bolo de laranja, a cueca virada e mesmo a dobradinha ficaram na lembrança, afirma Ellen. Noelle conta das panquecas que, acidentalmente, rasgavam na frigideira. Como não “prestavam” para serem enroladas, eram partilhadas entre os netos – para alegria dela e dos pequenos.

Católica praticante, comparecia às missas regularmente na Igreja Bom Jesus, no Centro, e orava por todos. Ellen recorda-se que quando se despediam da avó, Hollanda ficava no portão. Ela sempre mexia os lábios e fazia uma oração quase inaudível. Enviava bênçãos à família. Otimista, sempre dizia que, “de hora em hora, tudo Deus melhora”. Segundo Clésius, a avó, mesmo católica, flertava com Seicho-No-Ie. Aos 30 anos, ele foi batizado na religião a pedido de Hollanda. A neta Daphne lembra-se também da avó lendo trechos do livro da filosofia. Ela acompanhava Hollanda durante os cânticos. “Apesar de pender para o catolicismo, ela aproveitava fragmentos bons de outras doutrinas. Seu Deus era um só”, destaca.

Tinha uma fé inabalável em que tudo sempre ia dar certo. Foi picada por uma aranha marrom e recuperou-se. Teve duas fraturas de fêmur – com mais de 70 anos –, e, mesmo com o prognóstico dos médicos que não ia mais voltar a andar, Hollanda, fazia tudo em casa andando em uma cadeira comum de um lado para outro e ainda jogava bexiga com os netos. Depois de um tempo, voltou a andar normalmente. “Era dona de uma força de vontade invejável”, diz a neta Noelle. Contrariou a tudo e a todos.

Viveu até os 94 anos sem apresentar problemas de saúde significativos. Em fevereiro desse ano, porém, foi internada pela primeira vez, pois estava com dificuldades para respirar. Ficou cerca de um mês no hospital, e nesse período, pareceu dormir tudo que não havia dormido a vida toda. Recuperou-se e voltou para casa. Comemorou o 95.º aniversário em 11 de abril na presença de filhos, netos, bisnetos e trinetos. Em 1.º de maio teve a felicidade de reencontrar o filho, Amaury, que não via há cerca de 10 anos. “Parece que ela só esperou para reencontrá-lo”, acredita Ellen. Deixa cinco filhos, 36 netos, 18 bisnetos e dois trinetos.

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