
Contar que um médico chegou a fazer uma cirurgia de remoção do apêndice na mesa de jantar do paciente pode parecer mais uma das mentirinhas que estão sendo contadas neste 1.º de abril, mas não é. Também não é mentira que o protagonista desta cena real, Orlando Malucelli Moro, completaria 100 anos justamente hoje. A filha Rosita conta que o histórico cirurgião-geral de Ponta Grossa, nos Campos Gerais, estava conformado que teria de partir pouco antes de completar seu centenário. Foi exatamente isso o que aconteceu. Essa foi uma das raras vezes em que Orlando se conformou com alguma coisa na vida.
No seu dia-a-dia como médico, ele não hesitava em criticar as situações de falta de higiene e de cuidado com as quais se deparou. “Ele teve brigas homéricas com pessoas que insistiam em não lavar as mãos”, lembra Rosita.
Até os 95 anos, ele ainda lia publicações da área de Medicina. Esse era um hábito, por sinal, que sempre fez parte da sua vida. “Não importa quantas vezes o meu pai já tivesse feito determinada cirurgia, ele sempre a estudava novamente a cada vez que realizava”.
Muito antes de receber o epíteto de “Professor” – como era chamado pelos colegas da Santa Casa de Ponta Grossa – Orlando fora um menino que sonhava ser médico da Marinha do Brasil. Mas o filho único de José Ângelo Moro, gerente antiga da Casa Osternack, e da dona de casa Stella Malucelli Moro teve que abrir mão da parte mais “marítima” do seu sonho. O motivo foi que os pais não queriam que ele fosse para muito longe.
Depois de estudar no Liceu dos Campos, em Ponta Grossa, Orlando passou a ser interno do antigo Ginásio Paranaense, em Curitiba, no fim da adolescência. Passou a viver em pensionatos quando começou o curso de Medicina na Universidade Federal do Paraná (UFPR), pois a família não tinha muitos recursos. Formado em 1937, ele partiu para a capital do estado de São Paulo e lá fez residência médica no Hospital São Lucas. “Apaixonado pela família, ele preferiu voltar ao seu ninho, em Ponta Grossa”, afirma a filha.
Sua primeira esposa, Rosa Faria, faleceu precocemente. Alguns anos mais tarde, uma “fofoca” o aproximou de Dora Maria Xavier, a mulher com quem ficaria casado por quase 60 anos. “Meu pai atendia minha vó materna, Lila, em casa, mas nesse época ele e minha mãe não se relacionavam. Certo dia, uma vizinha da vó Lila resolveu perguntar para a minha outra avó, Stella Moro, se meu pai estava namorando a minha mãe, já que ele “vivia” na casa da família dela. O engraçado é que foi depois desse episódio que meu pai sentiu que podia estar começando um namoro”.
Na década de 1950, Orlando passou mais uma temporada em São Paulo e aprimorou seus conhecimentos sobre cirurgia. Entre outros grandes nomes da Medicina no Brasil, ele trabalhou com o famoso cardiologista Dr. Zerbini – que realizou o primeiro transplante de coração no Brasil.
“Ele era um homem bastante rígido, mas não era difícil entendê-lo. Meu pai vivia cansado, pois o chamavam para fazer cirurgias em qualquer horário e ele ia”, relata.
Fanático por longas viagens, ele estava numa pescaria em família no Rio Araguaia quando foi procurado por índios de uma tribo Carajás. “Havia uma índia com tuberculose na aldeia e eles só nos deixaram meu pai entrar porque era médico e podia ajudar a moça a se recuperar”.
Ele também foi o primeiro cirurgião paranaense a abrir o peito e massagear o coração de um paciente em céu aberto, já que não havia tempo de levá-lo até uma sala de cirurgia. “Só que ele nunca nos contou isso, pois era modesto. Ficamos sabendo através de um colega dele”. Deixa a esposa, cinco filhos e quatro netos.







