
Osvaldo Alves não teve oportunidade de estudar. Poderia ter sido um grande engenheiro, talvez um bom meteorologista ou, quem sabe, um excelente enfermeiro.
Criava engenhocas para facilitar o dia a dia da família: macetes de feijão feitos no quintal de casa, tábuas de cortar carne, bambus adaptados para colher abacate e goiaba – frutas abundantes no quintal do “véio” Osvaldo – e até um sistema para a esposa, baixinha, colocar as roupas no varal sem se esticar.
Apesar do pouco estudo, lia a Bíblia todos os dias e interpretava bem os textos da Sagrada Escritura.
Nascido em Serra Negra (SP), ele era apaixonado por aventuras no mar. Saía para pescar com frequência e voltava com o barco cheio. “Trazia sacos de caranguejo e distribuía pela vizinhança. Muitos vizinhos, vindos do Norte do Paraná, foram conhecer frutos do mar com ele”, conta a filha, Vera Lauriano. Desenvolveu o talento de “prever” dias de sol, de chuva, temporais. Se faltasse assunto em uma conversa, soltar um “será que chove?” era falar com a pessoa certa.
A pescaria era hobby. Osvaldo mudou-se para Paranaguá ainda jovem e na cidade litorânea conheceu a esposa, Nair. Logo que chegou ao município começou a trabalhar como ensacador no Porto de Paranaguá. Afobado, gostava de fazer tudo ‘pra ontem’ e era um dos mais ágeis na execução dos serviços. Foram cerca de 30 anos dedicados ao trabalho e, depois de aposentado, ele ainda se apresentava no sindicato. “Já era um hábito”, diz Vera.
De vez em quando, para complementar a renda em casa, ia trabalhar na colheita de soja no Rio Grande do Sul. Vira e mexe, ele contava do frio que enfrentou na região. Recentemente, diagnosticado com Alzheimer, acreditava que estava no RS por causa do frio que fazia. “Me leve de volta pra Paranaguá. Quero ver minha Nair”, dizia.
O amor pela esposa – e por toda a família – era gritante. Ela, com diabetes, tinha crises de hipoglicemia e Osvaldo sempre estava pronto para socorrê-la. Dizia que sentia quando a amada passava mal e já trazia um docinho para normalizar a glicose. Nair faleceu em 2013.
Por querer estar sempre perto da família, comprou quatro terrenos, um ao lado do outro: um para ele e a esposa; um para Vera; um para Odir, o filho, e no quarto terreno mantinha várias plantações. Para cada um dos netos e bisnetos deu um apelido: Dedé, Branco, Catarina, Bié, Gordim e Testinha eram alguns.
Há 18 anos, quando o filho e a nora ficaram desempregados, ele demonstrou, mais uma vez, a bondade imensa daquele coração: não deixava faltar nada na casa deles. Na época, o casal tinha uma filha de 4 anos e a nora estava grávida. O filho, então, decidiu abrir uma loja de móveis usados e Osvaldo ia todos os dias ao local para ajudar.
Também era um dos membros mais fiéis na igreja em que ele e a esposa participavam. Como um bom cristão, o amor ao próximo era uma característica muito forte na personalidade dele. “Quando as irmãs da minha mãe estavam para ganhar bebê ou ficavam doentes, era pra casa deles que elas vinham. Tanto que a tia Laura ganhou o primeiro filho lá. Ela teve complicações e quem saiu para pedir socorro, buscar a ambulância, foi ele”, conta Vera.
Durante um tempo, um sobrinho foi morar na casa dele. Com um senso de justiça apurado, decidiu que, assim como os filhos, o menino também iria para uma escola particular. Se alguém fazia algo por ele, merecia uma recompensa. “O trabalhador merece seu salário”, afirmava.
Em 8 de março, um dia após completar 79 anos, Osvaldo teve febre, por causa de uma infecção, e precisou ser internado. No hospital, ficou até ‘noivo’ de uma das enfermeiras. Ela dizia que admirava a capacidade dele de sorrir e tratar bem a todos apesar das dificuldades.
O quadro evoluiu para broncopneumonia e se agravou por causa de uma bactéria hospitalar. Partiu em 16 de maio. Deixa filhos, netos, bisnetos, irmão, sobrinhos e amigos da Igreja Quadrangular.
Dia 16 de maio, aos 79 anos, por complicações de broncopneumonia, em Paranaguá.







