Certas experiências da infância podem transformar a vida inteira de uma pessoa. Foi exatamente isso o que aconteceu com Paulo Carvalho, cujas memórias mais importantes dos anos 60, sua época de criança, envolvem trilhos, estações e carregamentos. Além do local de brincadeiras com os quatro irmãos, esses ambientes foram também o lar de Paulo, já que o trabalho de seu pai, funcionário da Rede Ferroviária Federal, levou a família inteira a morar em estações de trem por todo o Paraná.
Natural de Caçador (SC), Paulo passou, assim, a amar também o Paraná. Convivendo com graxa e engrenagens, pegou gosto pela parte mecânica do ofício, sonhando com o dia em que também trabalharia no ramo. Foi depois de terminar o ensino fundamental e passar pela experiência no Exército que conseguiu se aproximar do sonho.
Por volta dos 20 anos de idade, ingressou em um curso técnico em mecânica, em União da Vitória. Os estudos foram motivo de orgulho para a família simples, que ainda não tinha histórico de uma progressão mais alta em termos estudantis. Nessa época, além do avanço profissionalmente, Paulo teve de aprender a lidar com outro tipo de responsabilidade: com a morte de seu pai, passou a cumprir o papel paterno perante os quatro irmãos mais novos.
Com sorrisos e gargalhadas, Paulo contornava qualquer dificuldade da vida. A dedicação às pessoas e ao trabalho era uma de suas características marcantes. Essa dedicação se estendia, inclusive, para as pequenas coisas da vida, como a assiduidade com seus objetos, por exemplo, o que acabou por se tornar uma mania.
Quem sabe pela experiência de viajante na infância, Paulo acabou caindo justamente em um emprego que exigia idas e vindas constantes. Trabalhando com manutenção de caminhões, percorreu várias cidades paranaenses fazendo o que amava. Conseguiu o emprego logo após pegar o diploma de técnico em mecânica e acabou ficando na empresa por cerca de 20 anos.
Além das movimentações a trabalho, a vida pessoal acabou se estabelecendo entre Porto União, em Santa Catarina, e em União da Vitória, no Paraná. Mais uma vez, os caminhos da vida o levaram para uma região onde as fronteiras se misturam. Foi na cidade catarinense, aliás, que aos 24 anos conheceu Salete, em um baile da igreja. Começaram a namorar e, quatro anos depois, se tornaram marido e mulher, construindo uma relação tão boa a ponto de ouvirem afirmações de que tinham sido feitos um para o outro.
Em 1996, tiveram seu único filho, Gean. Além de ser grato pela relação de companheirismo extremo, Gean se orgulha de ter recebido aquilo que o pai considerava uma das mais importantes a ser transmitida para um filho: o acesso à educação.
Na família, a hora do jantar tornou-se sagrada. Momento de comunhão, de conversas sobre a vida e o mundo, e também de confraternização. Por volta dos anos 2000, Paulo deixou a vida de viajante para ficar mais perto do filho, e se tornou mecânico industrial.
Aos sábados, acordava cedinho para ir à feira colonial na estação ferroviária de União da Vitória. Lá, comprava um copo de café e um pastel, geralmente de carne, e aproveitava para colocar as conversas em dia com seus amigos. Sempre bem-humorado, Paulo conquistou muitos ao longo da vida.
Quando se aposentou, há cerca de quatro anos, passou a se dedicar a atividades diferentes. Com seu cuidado característico, fazia o jardim da casa da família e tomava conta da horta onde cresciam frutas e verduras.
Apesar de sempre cuidar da saúde e praticar exercícios físicos, acabou ficando enfraquecido por causa do diabetes, doença adquirida geneticamente. Quando foi internado, em março deste ano, não deixou de sorrir. Fazia questão de agradecer a todo momento à família e à equipe do hospital em que se encontrava pela dedicação e pelos cuidados deles. Acabou não resistindo. Descansou em paz no dia 12 de abril. Deixa a esposa e o filho.







