
Dobrar os joelhos e agradecer a Deus pelas conquistas de toda vida era prática diária de Pedro Alfonso. Se por algum motivo o rosário não estivesse ao alcance das mãos, não havia problema. Os dedos faziam as vezes das contas. Devoto de Nossa Senhora de Fátima, dizia que a fé era o melhor remédio dos momentos difíceis.
Nascido em Pederneiras (SP), casou-se com Dalva quando os dois ainda eram muito jovens. O único bem que a família tinha era um caminhão. O veículo servia para transportar cargas de cana-de-açúcar das grandes fazendas até as usinas da região. O dinheiro recebido pelo serviço quase não dava para o casal e o primeiro filho.
Com a notícia de que um segundo herdeiro chegaria em breve, Pedro decidiu que era hora de buscar novas oportunidades. O Paraná, com sua terra fértil e coberta pelo verde dos cafezais, parecia ser a melhor opção. Pedro lotou o caminhão com todos os pertences e encheu o coração de esperança na hora de pegar a estrada. O fim da jornada seria um recomeço para quem apenas queria ter um pedaço de chão para chamar de seu.
Na linguagem indígena, Kaloré, cidade no Norte do Paraná, significa “campo de árvores pintadas” e era justamente “uma nova pintura à vida” que a família esperava encontrar. Ao chegar ao novo lar, o patriarca teve contato com variadas culturas agrícolas. Aprendeu a cuidar da terra, plantar, colher e foi guardando tudo o que ganhava até que conseguiu seu primeiro alqueire de terra.
As cores verde e vermelho do café, o amarelo do milho, o marrom do feijão e o branco do algodão deram a Pedro mais e mais alqueires e eles garantiram a tranquilidade da família. Outros quatro filhos nasceram e puderam crescer com fartura na mesa. “Meu avô sempre foi muito bondoso. Para agradecer a Deus por tudo o que recebeu, estava sempre disposto a estender a mão para quem não tinha nada. Fosse com remédio, um saco de pão, um botijão de gás ou dinheiro”, conta a neta Evelize Alfonso.
Plantando, colhendo e tendo sempre um dinheiro no banco, o paulista de coração paranaense não pensava em deixar a cidadezinha do interior. Por lá fez amigos, companheiros e mudou sua história de vida. “Ele adorava o município. Contava que só havia mato quando ele chegou e jurava que até mula sem cabeça encontrou por aqui”, diz a neta, rindo.
Depois da aposentadoria, Pedro foi convencido pelos filhos e pela mulher a se mudar para a cidade. Nem por isso deixou de ir ao sítio todos os dias. Arrumou, inclusive, mais uma ocupação: criar porcos. Todos os dias, antes mesmo de o sol mostrar os primeiros raios, lá ia ele a caminho da roça para alimentar e cuidar dos animais.
Mas a rotina teve de mudar no ano passado. Após ser diagnosticado com câncer no intestino, foi obrigado a interromper o serviço e seguir para um hospital em Apucarana, também no Norte, para tratar a doença. Foi submetido a uma cirurgia e a saúde foi ficando debilitada.
Além do câncer, um acidente marcou a vida de Pedro. Em 11 de julho, voltando do sítio, passou por um buraco e virou violentamente o volante. Foi levado ao hospital com uma torção grave no ombro. O trauma gerou uma infecção nas articulações e ele seguiu internado. O caso se agravou e ele foi para a UTI. “Ficou 18 dias internado e, infelizmente, voltou para casa já sem vida”, lamenta Evelize. Deixa mulher, seis filhos, 13 netos e quatro bisnetos.







