
Entre os antigos moradores da Ilha de Superagui, no município de Guaraqueçaba, no Litoral do Paraná, Pedro Michaud Miranda era considerado o “relações públicas do fandango” na região. Para ele, a cultura da roda de instrumentos e a dança coletiva não tinham fronteiras. Levava a sério o seu trabalho informal. Ele acrecitava que a música e a dança tinham de ser mantidas vivas entre os jovens e então seria possível levar a cultura adiante.
Com sua viola de seis cordas – enfeitada e colorida –, Pedro fazia a alegria de turistas e caiçaras interessados em ouvir seu “dondon”. Além de ser o morador da casa mais antiga do lugarejo, era descendente da 4.ª geração do suíço e desenhista Guilherme William Michaud – que em 1854 pisou pela primeira vez em Superagui. Pedro não seguiu os passos do trisavô quanto ao traço da reprodução das belezas nativas, mas deu a importância à cultura local.
Pescador de profissão, já estava aposentado. Nasceu e viveu na ilha por toda a vida. Só saía de lá quando era chamado para participar de eventos de fandango. O último deles ocorreu em São Paulo. Voltou deslumbrado, conta a neta Adélia. Era uma alegria quando o avô percebia o interesse dos jovens por essa tradição. Assim que os turistas chegavam, ele se aproximava da pousada e seguia contando histórias para quem quisesse prestar atenção. Eles viravam amigos. A neta brinca que o avô tinha amigos espalhados por todos os cantos.
Sua paixão era mostrar esse trabalho junto com os amigos fandangueiros no bar Akdov, de propriedade de Laurentino Souza. O dono do espaço arregimentava os mestres fandangueiros para mostrar sua arte no local frequentado pelos turistas. Pedro estava entre eles, sempre mantendo o seu estilo e a quietude característica. “Era um homem manso”, descreve Divanir, 56 anos, a mais velha entre as filhas mulheres. O pai vestia-se com roupas sociais, camisa para dentro das calças e óculos escuros –mesmo à noite. Tinha olhar tímido e não era de muitas palavras.
Assim como a família, o amigo Marcos Flavio Malucelli – que chamava Pedro de “tio” – tem a mesma percepção: era“querido, de fala mansinha e sempre disposto a ensinar a cultura caiçara para os jovens”. A amizade deles vinha de longe; Marcos aprendeu a tocar violão com Pedro há 20 anos.
Era uma pessoa de pouca ambição. Mas a família e os amigos são unânimes em afirmar que o velho pescador mantinha o desejo de que o fandango de Superagui estivesse nas mãos dos jovens e que a tradição siga para as próximas gerações.
No próximo dia 28, Pedro iria completar 83 anos com muita música, mas o estado adiantado de um câncer não permitiu a comemoração. “Dessa vez, a festa será no céu”, comenta o amigo. Deixa dez filhos, 24 netos e 16 bisnetos.
Dia 14 de junho, aos 82 anos, de câncer, no Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul.
Lista de Falecimentos - 16/06/2015
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