
Pedro Severino dos Reis Netto era um artista, sem dúvidas. Com pouca oportunidade de estudo e muito talento, fez questão de deixar aos dois filhos, Gisele e Marcelo Reis, um bem imaterial: a educação. “Ele deixou o estudo como prioridade para nós. Eu me formei em contabilidade e sou músico”, conta o filho.
A música foi outra herança. Quando criança, o filho costumava pegar o violão de cima do guarda-roupa. “De vez em quando, eu derrubava o violão. Meu pai o emprestou para o meu tio e quando o instrumento voltou para casa, ele me ensinou as primeiras notas”, lembra-se Marcelo. O rapaz divide a paixão pela música entre um grupo de pagode e apresentações no estilo “voz e violão” em todo o Litoral.
Embora não fosse ligado aos esportes, Pedro dizia que era torcedor do São Paulo por causa do filho. Com a bola era um excelente músico. “Mesmo sem jeito, ele gostava de bater bola comigo. Uma vez me deu uma bola nova para ficarmos brincando”, destaca Marcelo. O futebol rendeu várias lembranças. “Ele brigava quando eu sujava a casa de terra. Eu era gordinho e me jogava no chão. Sempre rasgava o meu calção”, conta o filho.
Para a filha, Gisele, Pedro foi referência em um momento delicado. “Eu me separei quando minha filha, Luana, estava com três meses e foi um momento muito difícil. Eu estava entrando em depressão e meus pais me acolheram de tal forma que ele virou o pai da minha filha também”, descreve. Segundo Gisele, dava até pra sentir ciúmes da relação dos dois: “ela queria que ele a fizesse dormir e que fosse buscá-la na escola. Se minha mãe ia, ela procurava o avô”, detalha.
Pedro era pintor – de quadro, parede, faixas – e deixou esse dom para a neta, que está prestes a completar 5 anos. “Eu nessa idade não sabia nem segurar o pincel”, brinca Gisele. As brincadeiras com a pintura começaram quando Luana estava na fase de riscar as paredes de casa. O avô fez uma moldura com os personagens que a menina gostava e incentivou os rabiscos dela. Mais tarde, construiu banquinhos para a neta brincar e eles pintavam juntos. “Se ele estava pintando uma faixa, ela já queria um pedaço para pintar também”, diz.
Na fase questionadora da neta, só ele tinha paciência para explicar as coisas, garante a filha. “A rua estava em obras e meu pai levou a Luana para ver o trator. Explicou para que servia e tirou foto dela lá em cima”, lembra-se.
Além da educação e dos dons artísticos, Pedro e a esposa, Ivonete, ensinaram a importância da fé. Membros atuantes da Igreja de São Cristóvão e São João Maria Vianney, em Paranaguá, eles ajudavam em tudo na comunidade. “Meu pai assava carne nas festas, e apoiava na organização. O desenho do barracão foi ele quem fez”, se orgulha a filha. Foram cerca de 20 anos dedicados à igreja. Pedro era devoto de Nossa Senhora Aparecida. “Ele sonhava em conhecer o Santuário de Aparecida”, afirma Marcelo.
A neta mais nova, Natália, teve pouco tempo de convivência com o avô: apenas oito meses. “Na última vez que nós fomos visitá-lo, ela foi para o colo dele. Eles brincaram e riram bastante. Era algo que ela não costumava fazer”, contam Marcelo e a esposa, Renata.
O pintor estava em casa quando começou a sentir dores no peito, mas não quis preocupar a esposa. Teve um enfarte. Pedro pode ser homenageado a qualquer momento. Gisele está grávida de nove meses e vai dar ao filho o nome de Pedro Gabriel. Deixa a esposa, dois filhos, nora, genro e duas netas.







