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obituário

Raul Pimenta: as viagens pelo universo das palavras

 | Arquivo da família
(Foto: Arquivo da família)

Ainda criança, em São Tomás de Aquino, em Minas Gerais, a literatura preenchia os dias de Raul Pimenta. Fascinado pela leitura, lia o que tinha e o que podia. Na escola, tirava sempre as melhores notas, até mesmo em Matemática, apesar de o forte do garoto ser mesmo o Português.

Cresceu entusiasmado com a ideia de ser professor. Na adolescência, saiu da cidade natal e foi morar com os pais em Nova Esperança, no Noroeste do Paraná. Ao chegar à cidade, passou um tempo no seminário, tentando se convencer do celibato, época em que aprendeu e aprimorou o latim. Desistiu da vida religiosa após conhecer Lúcia.

O namoro até começou, mas havia a distância, pois a jovem vivia na capital. Em vez de olhares, mão dadas, beijos e abraços, eles tinham as palavras. A troca de cartas fazia parte da rotina do casal, que, por anos, manteve o relacionamento, um longe do outro.

“Ele nos contava essa história e eu achava tão bonita, tão honesta. Um amor verdadeiro”, diz a filha Sônia Pimenta.

Antes mesmo de se casar, o sonho de Raul de ser professor se tornou realidade. À época, o jovem passou pelo magistério e conseguiu o canudo que dava a ele a permissão para lecionar a disciplina que mais gostava.

Meses depois, casou-se com Lúcia. Os três filhos nasceram e eles se mudaram para Maringá, também no Noroeste. A família foi criada com Raul dando aulas em escolas da cidade e a esposa confeccionando artesanato.

Sônia relembra que o pai sempre foi muito rigoroso e se mantinha fiel à religião, apesar de ter abandonado a ideia de vestir a batina. As missas aos domingos eram sagradas e ninguém podia faltar. Foi catequista e ministro de Eucaristia por décadas.

Também preservava as duas filhas e vivia de olho aberto quando alguma delas apareceria com um namorado. Com o filho, apesar de também manter a rédea curta, era um pouco mais liberal.

“Cheguei a ficar um ano de castigo por namorar um rapaz que ele não aprovava. E até mesmo o que ele aprovou, ainda pegava no pé. Eu namorava em casa e se passasse das 22 horas e o namorado não fosse embora, meu pai saia apagando as luzes e batendo as janelas. Era o sinal”, conta ela, rindo.

Apesar da criação rígida, a filha diz que o pai sempre foi presente. “Ao mesmo tempo em que ele era bravo, exigente, era carinhoso. Dava a bronca e explicava o motivo. Passei a criar meus filhos assim também.”

Depois que os filhos se casaram, Raul passou a viajar em excursões. Como a companheira não gostava de deixar a casa, o marido ia com os amigos e foi até para Jerusalém.

“Ele lia tanto, que em teoria, já conhecia todos os lugares. Era o guia turístico das viagens”, brinca Sônia.

Em 1999, os dias do professor de Português passaram a ser mais tristes. O filho e a nora morreram em um acidente de carro, quando o rapaz voltava de Curitiba. Ele tinha levado a esposa para defender a tese de Doutorado. Anos se passaram e, apesar da dor, a família se manteve unida.

Com a aposentadoria, Raul não quis ficar longe dos textos. Passou a corrigir dissertações e teses para mestrandos e doutorandos da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Durante o tempo livre, abria um livro, esticava as pernas e passava horas fazendo a viagem que mais gostava: aquela no universo das palavras.

Em 12 de novembro do ano passado, foi até uma loja de materiais de construção na Avenida Colombo, em Maringá. Ao sair do estabelecimento, ainda no meio-fio, foi atropelado por um motociclista que passava em alta velocidade. Ficou 16 dias no hospital, em coma, sem apresentar melhora e faleceu no fim de novembro. Deixa mulher, duas filhas, sete netos e uma bisneta.

Lista de falecimentos - 16/01/2016

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