
O sorriso no rosto era a marca registrada da mineira Sebastiana Alves Batista. Usava a alegria como arma para superar suas dificuldades. Com poucos recursos, garantiu não só a educação dos 13 filhos, mas também a criação e desenvolvimento de grande parte do que atualmente é conhecido por Vila Torres, no Prado Velho, em Curitiba.
Natural de Água Boa, município de Minas Gerais, ela começou a trabalhar na lavoura desde muito jovem, quando ainda morava com os pais. A família garantia o sustento plantando um pouco de tudo e vendendo no mercado da região. A rotina de ir à cidade fez com que ela encontrasse seu companheiro de toda a vida: Vicente Batista. Sanfoneiro de mão cheia, o casal se conheceu enquanto ele tocava em uma roda de cantiga da cidade. O casamento aconteceu pouco tempo depois, no início da década de 1960. Eles eram conhecidos por estarem sempre muito unidos. Trabalharam juntos na plantação de arroz no brejo, também conhecido por “arroz das águas”, por quase dez anos.
Ao contrário do que o nome Água Boa sugere, o pequeno município foi atingida por uma seca nos anos de 1970 e isso fez com que a família não conseguisse continuar naquele local. Amparados por Antonio, primo de Sebastiana, conseguiram se mudar para a Região Norte do Paraná, onde retomaram os trabalhos na lavoura.
Do pai, Pedro Alves, Sebastiana recebeu os ensinamentos de como preparar soros, chás e remédios caseiros. Com ele aprendeu a ser benzedeira e começou seus cuidados com a saúde das crianças. O sucesso de trabalho fez com que fosse reconhecida em todo o Norte do Paraná, atraindo pessoas de diferentes cidades. Não cobrava por suas bênçãos, mas eram as doações recebidas que amenizavam as dificuldades da família. Em 1974, novamente com a ajuda do primo, veio para Curitiba acompanhada do marido e de 11 filhos. A chegada à capital já mostrou os primeiros obstáculos. Não habituados ao frio, desembarcaram no dia de uma grande geada, o que deixou todos adoecidos.
Após alguns meses morando de favor em Curitiba, conseguiram um pequeno lote na região que hoje é conhecida como Vila Torres, onde construíram uma pequena casa. Lá começou Sebastiana seus trabalhos pela organização e desenvolvimento de uma nova comunidade.
Acompanhada de outros moradores, criou grupos para lutar pelos direitos básicos da região, como luz, água e saneamento. Com um espirito de liderança, participou ativamente de etapas de abertura e nomeação de ruas da vila.
Seguiu sempre com sua preocupação com a saúde das crianças, em especial no combate à desnutrição. Preparava soro caseiro e sopas com casca de banana e talo de couve, e era assim que garantia o bom crescimento dos pequenos. Entrou para a Pastoral da Criança, comandada por Zilda Arns, em 1980, onde aprimorou suas habilidades e ampliou sua ação na comunidade. Ela se orgulhava de ter seu trabalho desde antes da Pastoral reconhecido e elogiado por Zilda.
Na comunidade também era conhecida por sua boa mão para cozinhar. Transformava os poucos recursos em verdadeiras refeições, as quais alimentavam não só sua família, mas também quem passasse com fome por ali. Tinha um espirito acolhedor; criou vários filhos adotivos durante seus 75 anos, além dos muitos cachorros. Sua habilidade com as panelas também garantiu o bom andamento da construção da Igreja de Nossa Senhora Aparecida, dentro da Vila Torres. Foi ela a responsável por preparar as refeições dos trabalhadores que ergueram o santuário. Diminuiu sua participação na Vila Torres devido ao falecimento do marido, em 1998; passou a se dedicar à criação dos filhos.
A educação era prioridade para Sebastiana. Fazia questão de levar e buscar seus filhos todos os dias na escola. “Ela sempre dizia que a melhor forma de educar é com o testemunho”, lembra a filha Karem. Com o avanço da idade, teve quatro derrames e passou por duas cirurgias cardíacas. Faleceu devido a uma mistura de fatores: enfarte, AVC isquêmico e bloqueio cardiovascular. Deixa 13 filhos, 18 netos e quatro bisnetos.







