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LISTA DE FALECIMENTOS - 27/11/2015

Terezinha Cardoso: memórias de uma repórter

 | Daniel Castellano / AGP/GAZETA
(Foto: Daniel Castellano / AGP/GAZETA)

Terezinha Cardoso arrancava risos sempre que dizia a data em que deu início à sua carreira – 13 de dezembro de 1968, o dia do Ato Institucional número 5, o AI5, medida que inaugurou o mais longo e violento período de cerceamento à liberdade de imprensa no Brasil. “Começou bem, hein!”, brincavam os amigos. Não foi a única particularidade da jornalista, catarinense de Araranguá e contabilista na adolescência.

Naqueles idos, poucas mulheres cumpriam expediente nos jornais paranaenses. A presença de Terezinha e algumas poucas outras na redação de O Estado do Paraná e da Tribuna, então na Rua Barão do Rio Branco, atirava pó-de-mico no Clube do Bolinha formado por repórteres e fotógrafos. Nem a proteção do diretor, Mussa José Assis, seu professor na “Católica” e diretor do Estadinho, a poupava dos gracejos. “Nunca mais tive coragem de usar saia”, anarquizava, sobre seu début.

Não era exagero. Além dos olhares gulosos dos colegas de ofício, Terezinha tinha de enfrentar outro reduto masculino – as delegacias. Por um desses acasos, a “foca” – jargão para repórteres iniciantes – começou cobrindo o preço da carne, mas logo ganhou uma vaga na página policial, tradicionalmente ocupada pelos “carrapichos”, alcunha dos jornalistas dados a grudar nas barras dos fardados para conseguir informações. Ninguém deu colher-de-chá para a recém-chegada.

Cobrir uma caçada a criminosos, no meio de um bosque, e ficar presa numa cerca de arame farpado – como lhe aconteceu –, não era o que esperava da vida. Como tantas gurias, tinha escolhido o jornalismo depois de se apaixonar pelo trabalho da repórter italiana Oriana Fallaci. Mas não teve remédio. Quando dava entrevista sobre seu pioneirismo na cobertura policial, não colocava compressas. Contava que não gostava da área, que não se sentia à frente de uma tarefa relevante, que fez o melhor possível.

Não mentia. Em vez de se contentar com a versão dada pelos policiais, como era praxe, lançava-se na investigação, antecipando a evolução da reportagem de porta de cadeia. Teve momentos lendários – como sua cobertura modelar da prisão do popularíssimo assaltante apelidado de Jack Palance, dada a semelhança com o ator e pugilista americano, famoso pela série Acredite se quiser. E as rumorosas reportagens para o jornal O Globo sobre o assassinato do humorista Leon Eliachar, em 1987, a mando de um fazendeiro paranaense. O caso teve repercussão nacional.

Ano passado, em entrevista ao Núcleo de Jornalismo e Ditadura Militar da UFPR, Terezinha declarou, com humor involuntário, que “fazer página de polícia não era uma atividade normal”: “Você não vai na Petrobras, vai ao submundo, onde só tem desgraça. Vi fetos nos banheiros das cadeias”. Reagiu àquele cenário. Feminista – figura entre as fundadoras do Coletivo 8 de Março – denunciava os maus-tratos a mulheres nas delegacias. “Eu protegia as putas. Denunciava ‘tira’ que ficava bebendo na repartição”, contou. Sim, recebeu ameaças de morte e lhe chacoalharam nas fuças cheques com muitos zeros, para que recuasse. “Queriam que eu fosse um José Domingos de saia. Não aceitei esse papel. Era massacrante.”

Em 1975, mandou-se para o Rio de Janeiro, cidade que amou. Fez reportagens nos campos da saúde e da juventude, novos amigos, até que voltou para o Sul. Encontrou as portas abertas, inclusive no próprio jornal O Estado do Paraná. Na década de 1990, ao se aposentar, tinha sepultado os medos sentidos em 1968, quando começou. Não foi irrelevante, como temia. Sem falar na estima.

Os colegas a reverenciavam – dos parceiros nas rondas pelo IML e pelos inferninhos, como Ali Chaim, passando pelo cartunista Dante Mendonça e por mitos, como a ambientalista Teresa Urban (1946-2013). Onde estava Terezinha, tinha alegria. Sabia seduzir uma plateia, apesar da timidez, nunca vencida. As memórias de seus muitos anos de lides eram uma grande crônica dos tempos românticos do jornalismo, uma era que não desperdiçou.

À UFPR, Terezinha Cardoso contou ter esboços de um livro sobre sua trajetória. Trabalhava no assunto, mas desde que caíra, dentro de casa, “todos os bichos deram de lhe perseguir”. Sentia-se adoecida. Morava num sobrado construído a seco, no meio de uma mata da Barreirinha. Estava cercada de árvores, livros e recordações, como um retrato em que ela aparece cabelo black power, riponga e linda, assinado pelo quadrinista Claudio Seto (1944-2008). Embora mais reclusa e “sem tesão”, como disse, não perdia a graça. Em fotos para a Gazeta do Povo, em 2010, vestiu camiseta rosa-choque, com inscrições elogiosas aos vira-latas. Via-se comum como um deles. E era única, tanto quanto.

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Dia 16 de setembro, em Curitiba, aos 72 anos, de causas desconhecidas. Tinha cinco irmãs. Não deixa filhos.

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