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Lista de falecimentos - 26/05/2015

Valério Hoerner Júnior: o biógrafo do doutor Leocádio

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O advogado Valério Hoerner Júnior pertencia a uma categoria muito particular de pensadores – a dos “intelectuais discretos”. Passou uma boa parte de seus 72 anos escrevendo sobre o Paraná. Estima-se que tenha assinado pelo menos 700 artigos de jornal e 37 livros. Seu nome está cravado em um sem número de temas – da vida da santa municipal Maria Bueno à trajetória da Rádio PRB2, do Atlético Paranaense à Santa Casa. É uma referência. Mesmo assim, manteve-se sempre dois passos atrás dos holofotes. Era onde se sentia bem.

Durante os verdes anos, Valério foi “homem que perambulava”. Seguia a tradição dos flâneurs, que elegantes procuravam nos cafés e nas praças a alma das cidades. Gostava de ouvir histórias paroquianas e de contá-las, o que muitas vezes lhe custava noites em claro a bordo das máquinas de escrever. O resultado logo aparecia na imprensa, e em livros, como Ruas e histórias de Curitiba. Hoje, para saber quem foram os populares Maria do Cavaquinho ou o Smaga é preciso recorrer aos escritos dele.

Se o desempenho na memória dos anônimos era boa, superou-se ao tratar dos ilustres. Devorador de biografias, acabou se tornando a escolha natural para contar a vida do médico abolicionista Leocádio José Correia, médium de grande fama. Relutou. Quem insistiu foi Sônia, espírita aplicada, ao saber que Leocádio era bisavô do marido. “Não poderia ser outro escritor”, conta, sobre o maior sucesso editorial do prolífico de Valério. O livro rendeu peças de teatro e, há poucas semanas, uma homenagem especial na Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas.

Tudo indica que tentou outro destino, que não o de curitibano em tempo integral. No início dos anos 1960, durante férias de verão em São Francisco do Sul, Santa Catarina, conheceu a carioca Sônia. Dois anos mais nova, bonita e expansiva – perfeito oposto para um tímido das araucárias. Num “namoro de praia”, como ela diz, apaixonaram-se. Valério fazia de tudo para agradá-la: tomava banho de mar, atividade que passava longe de suas dez preferidas; deixou o “bico” de jornalista na Gazeta do Povo e se mudou para o Rio de Janeiro, com a desculpa de fazer um curso na Fundação Getúlio Vargas. Casaram-se em 1967. Em 1972, Curitiba venceu a parada. “O Rio não lhe agradava. Nos mudamos para cá de uma vez por todas”, conta Sônia, sobre o Lelo, como o chamava.

Ele marcou a cidade. Fez longa carreira no curso de Direito na Pontifícia Universidade Católica – assim como na administração da universidade. Era o “Valério da PUC”. Paralelo, somou-se à tradição dos memorialistas locais, merecendo a cadeira 40 na Academia Paranaense de Letras, já em 1981. Com os amigos Túlio Vargas, da academia, e Carlos Roberto Antunes dos Santos, historiador e ex-reitor da UFPR, formava uma versão local dos três mosqueteiros. Falavam-se amiúde, sobre essa ou aquela curiosidade que checavam com a mesma rigidez merecida por uma tese jurídica. “Eu o admirava – ele sempre tomava uma posição nos debates. E o fazia de forma literária. Tinha um jeito especial de se expressar”, destaca a mulher.

O interesse por Curitiba não esmoreceu mesmo nos anos em que o sujeito caseiro se impôs por sobre o que gostava de circular. A migração do portão para dentro se deu na medida em que envelhecia. A grande biblioteca particular o abastecia. Batia o ponto, um ou outro sábado de manhã, no Bar Tartaruga, da Rua Itupava, reduto dos atleticanos – o time era sua paixão. Tinha predileção pelas madalenas da Confeitaria das Famílias e pelos tradicionais sanduíches de pernil da “XV”. Mas preferia cozinhar em casa – comprava camarão no Mercado Municipal e ia às vias de fato com as panelas. Tinha aprovação dos seus. Chamavam-no de “chefe”.

Gostava da casa cheia, todos à mesa. Era aos filhos Patrícia, Marcelo e Fernanda que mostrava dotes secretos, como o de poeta. Fazia versos para os netos, e para Soninha, a quem chamava de sua protetora. Era também no reduto doméstico que Valério se entregava ao mais delicioso dos vícios: assistir uma, duas, três vezes aos clássicos do faroeste – em especial os estrelados por John Wayne. A coleção forra um armário. Na lista, O homem que matou a facínora, de John Ford; e O dólar furado, de Giorgio Ferroni.

Os dois últimos anos – quando um câncer roubou sua voz – foram compensados pelas falas dos cowboys do bangue-bangue, onipresentes no DVD. E também pelos discos do tenor ítalo-americano Mario Lanza – cuja voz enchia a grande moradia do Jardim Social. O discreto Valério estava se despedindo. Deixa a mulher Sônia, três filhos (um quarto in memoriam) e seis netos.

Dia 27 de abril, aos 72 anos, de complicações de um câncer, em Curitiba.

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