
O pré-adolescente Victor D’Ambros, 13 anos, queria escrever um livro. Já tinha o esboço de alguns personagens; escrevia no seu ritmo o projeto de futuro. Mas nem sempre tinha tempo. A descoberta de um tipo de câncer agressivo mudou o seu dia-a-dia nos últimos três anos. Mesmo assim a rotina de hospital e tratamento não impediu que fizesse as coisas que mais gostava: curtir os jogos de computador, assistir às sessões de cinema, séries de televisão, e, principalmente, a leitura de livros - muitos títulos.
Até 2012, Victor frequentou a escola regular. Os primeiros anos do Ensino Fundamental foram vividos no Centro de Educação Integral Heitor de Alencar Furtado, no bairro Campo Comprido, em período integral. Alegre e brincalhão, o convívio com a mãe era estreito, mesmo na escola. Kátia era a professora de educação física do CEI, na época. Até pela profissão, ela lembra-se de que incentivava Victor a praticar esportes. O menino fez de tudo um pouco: karatê, capoeira, futebol de salão e atletismo. Em 2012, enquanto frequentava o 6.º ano na Escola Estadual Ivo Zanlorenzi, participou da 1.ª Etapa da Corrida Infantil, no Centro Politécnico.
Era um garoto concentrado, quando ouvia burburinho no cinema ou no teatro, fazia “psiu”, com a maior simplicidade, conta a mãe. Aos sábados, Victor estava acostumado a participar de eventos culturais. Pela manhã, a presença no momento de leitura em uma livraria do shopping do bairro, com suas queridas contadoras de histórias Fauna e Flora, era uma das tantas alegrias.
Era na leitura de obras de ação – o seu gênero preferido – que Victor viajava e conhecia um mundo que não era só seu. A mãe conta que o filho não gostava de pegar emprestado e ter que devolver. Queria as obras ao seu lado; para folhear nos dias e tempo disponíveis. Entre os favoritos estavam as séries Diário de Banana, Battlefield, Caçadores de Zumbis ou qualquer título com muita ação. Muitos também tinham versões em games. O último que estava lendo, mas enão terminou, foi Mochileiro das Galáxias.
Nas férias de junho de 2012, uma dor no pé levou à descoberta de um nódulo. Victor recebeu o diagnóstico de Sarcoma de Ewing, um tipo de câncer que atinge os ossos. As idas e vindas ao Hospital Erasto Gaertner e o tratamento necessário, o mais agressivo, fizeram com tivesse que sair da escola e buscasse se cuidar. Não podia se machucar em hipótese nenhuma, devido à baixa imunidade.
As aulas passaram a ser dentro do hospital, nos períodos em que precisou ficar internado. Mas a leitura compensava de tal forma que, ao retornar à escola para o 8.º ano, no primeiro bimestre do ano passado, recebeu elogios da professora de Português. Nesse ano terminaria o Ensino Fundamental.
Os livros, o computador e os games ajudaram-no durante o processo terapêutico, acredita a mãe. Victor não gostava de hospital, mas sabia que era necessário para o tratamento. “Meu filho acreditava na cura.” Mas a briga era desleal. Ultimamente, Victor andava mais cansado. Apesar disso, quando lhe perguntavam como estava, abria um sorriso e respondia confiante: “estou bem”.
Em janeiro desse ano, Kátia recebeu a notícia de que o quadro tinha evoluido. “Quando eu soube que não seria possível a cura, implorei a Deus que, quando chegasse a hora do meu filho amado partir, Ele não permitisse que meu anjo sofresse!!!
Para os que conviveram com o jovem Victor, ficou na memória o guerreiro que só deixou lembranças boas e saudades. Deixa a mãe Kátia, as avós, os tios, os primos, os padrinhos.







