
Para quem o via sem conhecer, o porte do artista plástico Isaías Aparecido Lopes da Silva, que morreu em fevereiro aos 44 anos, poderia ser intimidador. Ainda mais se estivesse trajando sua roupa de trabalho, afinal atuou por mais de 15 anos como vigilante e segurança armado. Porém, após a primeira troca de palavras, com os recorrentes “meu anjo” ou “querida” ditos por ele, já se revelava sua verdadeira e terna face.
Fazer arte, para ele, sempre foi natural, mesmo que as condições não fossem favoráveis. Natural da comunidade quilombola de Adrianópolis (PR), Isaías e seus nove irmãos fizeram parte de uma realidade em que o sustento nunca veio sem cobrar o suor até das crianças. Aos nove anos, já encarava cobras peçonhentas que encontrava em seu primeiro ofício. Com o pai, trabalhava “coroando” bananeiras, ou seja, cortando o mato que cresce ao redor da árvore.
Aos 14, assumiu outra profissão de risco, carregando peso em uma mineradora do município. Com 21 anos era responsável pela família, já que o pai ficara debilitado após um AVC, e a trouxe para Curitiba em busca de desenvolvimento. A partir de então exerceu tarefas diversas. Além de segurança, trabalhou como chef de cozinha e em cargos administrativos. Apenas no início dos anos 2000, incentivado pelo companheiro, Martin Afonso Farias, e da sogra, dra. Vera Vargas, voltou a se aprofundar na pintura, sua grande paixão.
Apesar de não seguir uma escola de arte específica, as obras de Isaías se aproximam da arte naif, em que a vivência e emoção do artista, em geral autodidata, é muito visível. Retratava as camponesas sem rosto e o ambiente bucólico da origem como artista quilombola.
Ao falecer, deixou mais de 70 pequenas folhas com ideias para próximos quadros. Isaías pintava em um espaço dedicado a isso em sua casa, em Colombo, e apenas quando estava em paz consigo e com o entorno. Esse sossego emergia dele e contaminava todo o cenário. Até os animais de estimação – quatro cachorros e três gatos – paravam em meio à tranquilidade da atividade. Sua técnica não permitia erros, pois eles só poderiam ser consertados com a tinta a óleo totalmente seca, vários dias depois da pincelada. Portanto, era também um exercício de paciência, firmeza e delicadeza ao mesmo tempo, características que ele possuía não só no ofício das tintas, mas também no comportamento em geral.
Juntos há 21 anos, Isaías e Martin oficializaram a relação em uma época em que poucas uniões estáveis entre casais homossexuais eram realizadas. Além de cônjuge, Martin atuava como curador das exposições. No tempo livre, ir até Adrianópolis visitar os primos, aproveitando devagar a Estrada da Ribeira, era uma das diversões dos dois.
Em Colombo, Isaías deixa uma saudade palpável. Os vizinhos dizem que, sem sua bondade, a rua ficou mais vazia. Uma de suas alunas, Mariana Chemin, que aprendeu com ele os primeiros traços aos seis anos, compara a existência do artista não a uma frase, mas ao quadro “Noite Estrelada”, de Van Gogh, em que cada uma das partes compõe um todo iluminado.



