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As casas dos barões

Os palácios e palacetes que contam os ciclos de desenvolvimento econômico de Curitiba

A Villa Odette destaca-se pelo estilo enxaimel e pela implantação em amplo terreno ajardinado.
A Villa Odette destaca-se pelo estilo enxaimel e pela implantação em amplo terreno ajardinado. (Foto: José Fernando Ogura/Prefeitura de Curitiba)

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A erva-mate impulsionou a formação da elite econômica de Curitiba em meados do século XIX e início do século XX. Os chamados “barões da erva-mate” ergueram residências amplas e sofisticadas, conhecidas como os palácios e palacetes da capital, alinhados ao padrão de conforto e luxo da elite europeia.

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De acordo com o historiador Marcelo Sutil, os casarões históricos da cidade revelam esse processo de formação urbana. "Imóveis como o Palacete dos Leões, a Casa Gomm, o Palacete Guimarães e a Villa Odette reúnem referências diretas aos ciclos da erva-mate e do café e preservam características arquitetônicas de diferentes períodos", ressalta o historiador.

Parte desses espaços abriga atividades culturais e institucionais, sem perder a função de referência histórica na paisagem urbana. "Esses imóveis mostram como é possível preservar a memória urbana sem impedir novos usos, mantendo a relevância histórica na cidade”, afirma o arquiteto e urbanista Fábio Domingos Batista.

Palacete dos Leões registra o auge do ciclo da erva-mate em Curitiba

O Palacete dos Leões foi concluído em 1902 pelo engenheiro Cândido de Abreu para servir de residência à família Leão, fundadora da empresa Matte Leão. De acordo com Domingos Batista, o imóvel abrigou por décadas os descendentes de Maria Clara Abreu de Leão (irmã de Cândido) e Agostinho Ermelino de Leão Júnior.

Segundo o arquiteto, o Palacete dos Leões representa o auge econômico do ciclo da erva-mate ao reunir soluções construtivas modernas para a época e trabalhos artesanais de alto nível, produzidos por artistas locais e estrangeiros.

"Entre os elementos de destaque estão os leões do jardim, peças ornamentais importadas da Fábrica Santo Antônio do Vale da Piedade, tradicional indústria cerâmica localizada em Vila Nova de Gaia", explica o urbanista.

O palacete é um exemplar do ecletismo arquitetônico que Curitiba vivia nesse período. "O casarão apresenta mistura de estilos arquitetônicos, com elementos neoclássicos, barrocos e art nouveau. A estrutura inclui escadaria principal, terraço, torre e escada lateral. A fachada reúne pilastras, portas em arco pleno e ornamentos como capitéis coríntios, balaústres e medalhões", detalha o arquiteto.

Atualmente, o espaço pertence ao Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) e funciona como centro cultural. Foi oficialmente tombado como Patrimônio Cultural pelo estado do Paraná em 17 de dezembro de 2003.

O Palacete dos Leões reúne arquitetura eclética e elementos que refletem o ciclo da erva-mate no início do século XX.O Palacete dos Leões reúne arquitetura eclética e elementos que refletem o ciclo da erva-mate no início do século XX. (Foto: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo/Arquivo)

Casa Gomm preserva técnica inglesa rara e história social em Curitiba

O industrial inglês Henry Blas Gomm e sua esposa Isabel Withers edificaram a Casa Gomm em 1913, no bairro Bigorrilho. O projeto utilizou madeira em toda a estrutura e adotou o sistema balloon frame. Domingos Batista explica que nesse modelo, os montantes de madeira vão da base ao telhado em peça única, ao contrário do modelo moderno, que ergue a estrutura por etapas.

“A Casa Gomm é um exemplar bastante curioso em Curitiba, construído na década de 1910. O sistema balloon frame era pouco comum no Paraná. O imóvel integrou uma área verde conhecida como Bosque Gomm e manteve intensa atividade social ao longo das décadas", ressalta o arquiteto.

O historiador Marcelo Sutil destaca que o espaço era palco de grandes celebrações e muitas festas. "Entre os anos 1950 e 1960 a casa recebeu visitantes frequentes, durante o período em que Harry Gomm (filho de Henry) atuou como vice-cônsul da Inglaterra na cidade", relata o historiador.

De acordo com o historiador, registros indicam que, na coroação da rainha Elizabeth II, em 1953, a família Gomm promoveu uma grande celebração na residência. No ano seguinte, em 1954, a chegada em Curitiba da miss Brasil, Martha Rocha, também motivou um evento que reuniu a sociedade na casa da família.

A família Gomm vendeu a propriedade na década de 1980. No início dos anos 2000, equipes técnicas desmontaram e transferiram a casa cerca de 200 metros dentro do terreno original para viabilizar um empreendimento comercial. O imóvel abriga a Coordenação de Patrimônio Cultural do Paraná e recebeu tombamento em 1989.

A Casa Gomm preserva técnica construtiva inglesa em madeira e tradição social da elite curitibana do início do século XX.A Casa Gomm preserva técnica construtiva inglesa em madeira e tradição social da elite curitibana do início do século XX. (Foto: Oriel Correa Neto/Patrimônio Cultural Paraná)

Castelo do Batel reúne influência europeia e história política em Curitiba

No bairro Batel, o cafeicultor e cônsul honorário da Holanda, Luiz Guimarães, iniciou em 1924 a construção do Palacete Guimarães, conhecido como Castelo do Batel. "Ele sonhava em trazer à capital paranaense um pouco do requinte europeu que conheceu em suas viagens. O arquiteto Eduardo Fernandes Chaves assinou o projeto, inspirado em palacetes franceses do Vale do Loire", detalha o historiador Marcelo Sutil.

O historiador afirma que a obra utilizou materiais importados da Europa e se concluiu após quatro anos. O imóvel recebeu personalidades como Assis Chateaubriand e os presidentes Juscelino Kubitschek, Eurico Gaspar Dutra, Jânio Quadros e João Goulart.

"É um exemplar dos mais importantes e mais ricos que nós temos aqui na cidade. Em 1947, serviu como residência do governador Moysés Lupion", afirma Sutil.

Na década de 1970, o espaço passou a sediar a TV Paranaense. Reformas realizadas nos anos 2000 adaptaram o imóvel para eventos, com preservação de características originais. O tombamento estadual, realizado em 31 de janeiro de 1975, reconheceu o imóvel como patrimônio cultural do Paraná.

O Palacete Guimarães, conhecido como Castelo do Batel, destaca-se pela arquitetura inspirada em palacetes europeus e riqueza de detalhes.O Palacete Guimarães, conhecido como Castelo do Batel, destaca-se pela arquitetura inspirada em palacetes europeus e riqueza de detalhes. (Foto: Oriel Correa Neto/Patrimônio Cultural Paraná)

Villa Odette reúne arquitetura europeia e conforto de elite no ciclo da erva-mate

A Villa Odette foi construída entre 1923 e 1928, no Alto da Glória, como encomenda da família Leão ao arquiteto Eduardo Fernando Chaves. A residência apresenta fachadas com elementos enxaimel, técnica de origem alemã, que utiliza estrutura de madeira aparente, e área construída de 825 metros quadrados. O imóvel reflete a prosperidade associada ao ciclo da erva-mate na cidade.

O arquiteto Fábio Domingos Batista explica a origem do nome Villa Odette. "Nesse período, as construções seguiam o alinhamento do lote, sem afastamentos laterais. O conceito de vila, nesse caso, é o de uma casa implantada em um amplo terreno ajardinado", explica Domingos Batista.

O imóvel é distribuído em dois pavimentos, com sótão e porão. “Ele revela um padrão de conforto muito acima da média para o início do século XX, com soluções que não eram comuns no Brasil naquele período, como várias lareiras e banheiros equipados com água quente e itens importados”, afirma o historiador Marcelo Sutil.

De acordo com o historiador, a casa continua como residência da família Leão.

A Villa Odette destaca-se pelo estilo enxaimel e pela implantação em amplo terreno ajardinado.A Villa Odette destaca-se pelo estilo enxaimel e pela implantação em amplo terreno ajardinado. (Foto: José Fernando Ogura/Prefeitura de Curitiba)

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