O governo brasileiro terá de encarar um "levante" de atuais acionistas da Petrobras caso leve à frente a idéia de criar uma nova estatal e delegar a ela os direitos sobre o petróleo extraído da camada pré-sal. Ontem, a apresentação dos resultados financeiros da petrolífera, no Rio de Janeiro, foi marcada por discursos defendendo o seu patrimônio. As palavras eram uma resposta aos comentários feitos na véspera pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de que o petróleo no pré-sal não seria da Petrobras, mas do povo brasileiro. O "levante" contra a "Petrosal", como foi apelidada a empresa que o governo pretende criar, foi defendido por integrantes da platéia que se disseram acionistas da Petrobras. Alguns deles ameaçam ingressar na Justiça caso a criação da nova estatal prejudique seus investimentos.
O diretor financeiro da Petrobras, Almir Barbassa, limitou-se a dizer que não iria comentar o assunto. Ele lembrou que uma comissão interministerial foi criada pelo presidente Lula para tratar do pré-sal e que ainda não há nenhuma definição. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, apóia a nova estatal.
A preocupação do governo é garantir maior arrecadação diante da perspectiva da existência de um volume de petróleo que colocaria o Brasil entre as grandes potências produtoras. A reunião com os acionistas ocorreu um dia depois de o presidente Lula falar com todas as letras que o pré-sal "não é para meia dúzia de empresas", aumentando ainda mais a preocupação em relação ao tratamento que será dado à nova área. Além da Petrobras, possuem blocos no pré-sal a Shell, Amerada Hess, Galp, Repsol, BG e Exxon.
Durante o evento, depois de sucessivas perguntas sem resposta por parte de Barbassa, um dos mais antigos acionistas da empresa, Gilberto Esmeraldo, membro da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec), conclamou a Petrobras a se aliar à Apimec contra a criação da estatal.
"Infelizmente, deverá ser aprovada (a estatal), mesmo contra o voto corajoso de Gabrielli", disse Esmeraldo da platéia ao diretor, referindo-se a rumores sobre a resistência do presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, em aceitar uma empresa concorrente. "Minha sugestão é que Apimec e Petrobras se unam em defesa do acionista para protestar. A Petrobras tem direito adquirido no pré-sal", afirmou.
A indústria petrolífera no Brasil cerca de 70 empresas, muitas representadas pelo Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP) também é contrária à criação da "Petrosal". Na avaliação do IBP, para o governo conseguir mais recursos com o petróleo do pré-sal bastaria aumentar o valor dos royalties e participações especiais nos blocos da região, sem alterar a lei para criar uma nova empresa.
Os reservatórios do pré-sal podem conter bilhões de barris de petróleo e gás natural e se localizam numa faixa do Espírito Santo à Santa Catarina. A estimativa de reservas foi feita em apenas um bloco, o de Tupi, onde existe potencial entre 5 e 8 bilhões de barris. Especialistas, no entanto, afirmam que os reservatórios podem conter mais de 100 bilhões de barris.



