O governo da Argentina sinalizou nesta quarta-feira (13) que pode expropriar os ativos da Vale na província de Mendoza, onde a empresa desenvolvia o projeto Rio Colorado, após a mineradora anunciar a suspensão da operação do empreendimento. O ministro do Planejamento do país, Julio de Vido, assegurou hoje que a Vale "não cuida de seu caixa" e advertiu que "se não produzir nem explorar a mina violentará seu contrato de concessão".
A Vale "violentou a segurança jurídica, as leis da Argentina e de Mendoza", sustentou o ministro. "Não vamos pagar com títulos argentinos o revés de nenhuma empresa", disparou, em uma reunião com o governador de Mendoza, Francisco Pérez, e prefeitos da província na Casa Rosada.
A mineradora determinou a desmobilização do projeto de construção da mina de potássio, o maior empreendimento privado hoje em marcha na Argentina, que implica a supressão de cerca de 6 mil vagas de emprego diretas e indiretas. Segundo o "La Nación", cálculos mais pessimistas apontam 11 mil demissões.
A obra entrou em recesso em dezembro e, desde então, não foi retomada. Em janeiro, a Vale disse que buscava negociações com o governo para viabilizar o projeto. Na época, o governador de Mendoza já havia ameaçado retirar a concessão da empresa.
O projeto de potássio incluía, além da mina de Mendoza, uma ferrovia e um terminal portuário. O custo estimado é de US$ 6 milhões.
Segundo o ministro, "existe um descumprimento flagrante do contrato" da Vale. Ele alfinetou: "se fosse investidor da Vale, estaria preocupado". E descartou a possibilidade de uma ação contra a empresa prejudicar as relações bilaterais com o Brasil. De Vido defendeu também que a mineradora procurou compensar na Argentina o prejuízo global que registrou no último trimestre do ano e negou que a conjuntura econômica argentina tenha afetado o projeto.
"Em outubro a Vale dizia que o orçamento do projeto era equivalente a US$ 5,9 bilhões. Já em dezembro afirmou que era US$ 8,9 bilhões. E em janeiro, pouco antes de anunciar seu resultado, afirmou que era US$ 10,9 bilhões. Nada na Argentina inflacionou 80% em dólares em tão pouco tempo, até os nossos maiores detratores dizem isso", afirmou o ministro.
Em seu discurso, De Vido exibiu ainda recortes de jornais argentinos, que reproduziam o que saiu na imprensa brasileira retratando uma repercussão positiva da suspensão no mercado de capitais.
"Esta edição dá a entender que o governo brasileiro aprova o que a Vale fez, quando na realidade isto não existe", disse De Vido.
Hoje à tarde, está marcada uma audiência no ministério do Trabalho para que a Vale explique o destino dos trabalhadores que estão diretamente contratados para a obra, que são 3,5 mil apenas em Malargue, o município de Mendoza onde fica a mina.
"A situação da Vale vai gerar uma catástrofe", disse hoje o presidente da Câmara de Serviços de Mineração de Mendoza, Carlos Ferrer, referindo-se às demissões em um programa de rádio local. "Há empresas que fizeram grandes investimentos nesse projeto, que ia durar 30 anos, endividaram-se com máquinas, gruas e leasing."
Segundo ele, empresas já começaram a enviar cartas ao bancos, porque quebrou-se a cadeia de pagamentos.



