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Arte por m²

Especializada em impressões de altíssima resolução, empresa de Pinhais é uma das maiores confeccionadoras de reproduções artísticas do país

Nenhuma das obras expostas no escritório do empresário João Rezende é original, mas todas são motivo de orgulho para ele | Priscila Forone/ Gazeta do Povo
Nenhuma das obras expostas no escritório do empresário João Rezende é original, mas todas são motivo de orgulho para ele (Foto: Priscila Forone/ Gazeta do Povo)
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O empresário João Rezende tem oito obras de arte em seu escritório. Nenhuma é verdadeira. Fosse ele um Edemar Cid Ferreira – o ex-banqueiro colecionador de 1,2 mil peças –, a descoberta seria mais embaraçosa que as acusações de fraude e lavagem de dinheiro. Mas para o proprietário da empresa Recriar Arte, sediada em Pinhais, região metropolitana de Curitiba, as cópias são motivo de orgulho. Saídas do galpão no andar de baixo, os quadros têm ganhado as paredes de clientes em todo o Brasil e alguns outros países, fazendo de Rezende um dos principais confeccionadores de reproduções artísticas no país.

Uma média anual de mil reprografias de artistas nacionais e estrangeiros, novatos ou clássicos da história da arte, são produzidas anualmente pela fábrica, que emprega 22 pessoas. As peças, que abastecem antiquários e lojas de decoração, são vendidas ao consumidor final por preços que variam de R$ 50 a R$ 1,5 mil.

As obras com mais apelo comercial são as de arte decorativa, oferecidas pelas lojas para combinar com o design da sala do freguês. Atualmente, a preferência é pelos abstratos. "Arte conceitual ou política é difícil de vender. Mas procuramos valorizar os artistas nacionais", explica Rezende, cujo catálogo inclui também nomes como Klimt, Goya e Velázquez.

A cada venda de reprodução, o detentor dos direitos autorais tem direito a 5%, em média, do valor final de atacado. Mesmo no caso das obras clássicas, de domínio público, os valores costumam ser repassados para o museu que abriga o quadro ou ao fotógrafo responsável pela captação da imagem. No fim do ano passado, a Recriar encerrou um contrato de dois anos para reprodução das obras de Cândido Portinari. "Foi um dos mais vendidos, porque focamos bastante no produto. Mas não foi um dos mais rentáveis", avalia.

Fundada em 2005, a Recriar se especializou em impressão em altíssima resolução, após investimentos de R$ 500 mil ao longo de seis anos. As impressoras mais potentes da gráfica são capazes de produzir imagens com 2,4 mil pontos por polegada (dpi), uma definição 12 vezes superior à das fotos que ilustram esta reportagem. Para manter esse padrão, a velocidade de impressão não ultrapassa os 2 metros quadrados por hora.

O resultado final é bastante crível. Só é possível perceber que se trata de uma cópia ao aproximar os olhos do quadro, ou mesmo passar a mão na tela. A resolução torna possível representar detalhes da obra original, como fios de cabelo e diferenças de gramatura em relação à tela usada para a pintura. Obras compostas por pinceladas grossas costumam receber também uma texturização manual, para dar relevo ao quadro.

Marchand em série

A ideia para o negócio surgiu há 11 anos. Rezende era vizinho do pintor catarinense Érico da Silva, radicado em Curitiba e falecido em 2006. O artista, que procurava um lugar para fazer reproduções suas, motivou o empresário a entrar nesse ramo, tendo no amigo e vizinho a garantia de um primeiro cliente. "Demoramos seis meses até conseguir fazer a primeira cópia de qualidade. Chegamos até a usar secador de cabelo para tentar fixar a tinta da melhor maneira possível", lembra.

Tendo cerca de 40 contratos com artistas e espólios em vigor, Rezende defende que a prática da reprodução serve como suporte para a divulgação do nome dos pintores. "A reprodução é muito comum fora do Brasil. Por aqui, os artistas estão conhecendo esse mercado agora, e ainda têm um pouco de medo de que possa haver um mau uso do trabalho deles", conta.

O artista plástico Cláudio Rodrigues, cujos trabalhos são reproduzidos pela Recriar há quatro anos, avalia que o negócio o ajudou a se tornar mais conhecido no Brasil. "Ao contrário de banalizar a minha produção, agora vejo que as obras originais estão mais reconhecidas nas galerias", analisa o pintor gaúcho radicado em Curitiba.

Rodrigues, cujas obras são cotadas na casa dos R$ 3,5 mil nas galerias, afirma que o valor ganho com reproduções ainda está longe de alcançar as cifras das galerias. "É, mais do que qualquer coisa, uma maneira de atender a um novo público: pessoas que querem um bom quadro em casa, mas não têm condições de adquirir uma obra original", avalia. "Eu estou até usando essas telas em exposições".

O proprietário da Recriar avalia que a sua produção ocupa uma demanda correlata no mercado de artes, e evita qualquer mistura entre os dois mercados. "Não intermedeio a comercialização dos quadros originais, até porque a venda de um trabalho que estejamos reproduzindo não nos afeta. Os direitos continuam com o autor", esclarece.

Preço por metro

O modelo de negócios da Recriar é oposto ao do mercado tradicional das artes. O preço estabelecido nas galerias por um quadro ou escultura segue uma dinâmica econômica própria, influenciada por fatores como importância histórica, originalidade, anuência da crítica, apreciação entre o público e lei de oferta e procura. Por vezes, isso acaba catapultando um item a cifras astronômicas. A pintura mais cara já comercializada – o Abstrato n.º 5, do norte-americano Jackson Pollock – foi vendida em 2006 a um colecionador anônimo por US$ 150 milhões.

Nas reproduções da Recriar, porém, o preço está diretamente relacionado ao custo de produção. O quadro O Beijo, a obra mais famosa do simbolista austríaco Gustav Klimt, pode valer menos que uma produção de Cláudio Rodrigues, caso o clássico seja impresso em tamanho menor e leve uma moldura mais barata. O valor das reproduções elimina o mérito artístico da conta. "É mais comum um artista renomado permitir a reprodução que um iniciante. O pintor famoso tem confiança no valor de sua obra", diz Rezende.

A empresa expandiu seus negócios ao longo dos anos, e hoje produz também impressões comerciais e publicitárias. Mas a pintura artística permanece como a principal motivação de Rezende, embora corresponda a apenas 20% do faturamento anual bruto. O slogan "Demo­­cratizando a Arte", que aparece como um mantra em vários pontos da fábrica, demonstra o que ele entende ser a missão da empresa. "Sempre gostei de arte, mas aprendi a lidar com esse mercado e entender os conceitos depois que montei a Recriar", afirma.

Comercial

A arquiteta Walquiria Topo­rowicz, da loja Multilar, de São Mateus do Sul (PR), afirma que o trabalho com reproduções torna mais fácil encontrar peças com o estilo desejado. "A aceitação dos clientes é total. Eles vão conhecer apenas na loja, se encantam e levam para casa. A impressão de qualidade acaba sendo um diferencial positivo", relata.

As reprografias se tornam também um seguro contra prejuízos causados pelo fim de tendências de design. Como as mudanças de estilo são muito frequentes, um investimento em pinturas originais poderia causar prejuízo caso as obras começassem a encalhar.

Não há uma estimativa do tamanho do mercado reprográfico brasileiro, mas este pequeno setor sente de perto a pressão da concorrência internacional. De acordo com dados da Receita Federal, no ano passado o Brasil importou R$ 6 milhões em reprografias, vindas principalemente do mercado chinês. "A lucratividade dessas empresas é bastante alta, mas elas não têm envolvimento nenhum com a arte e os artistas", afirma Rezende.

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