
Domenico de Masi é um fenômeno particularmente brasileiro. Professor de sociologia em Roma, o italiano fez sucesso aqui com seu livro O ócio criativo, lançado dez anos atrás. Até hoje, sua mensagem lhe garante cursos e palestras no Brasil, para onde vem quatro a cinco vezes por ano. Sua fama no país, no entanto, é inversamente proporcional à força de seu nome lá fora.
Desde 1999, De Masi foi citado 103 vezes em textos da Folha de S. Paulo. New York Times, The Economist e Financial Times não têm um único registro de seu nome, de acordo com o sistema de busca dos sites das respectivas publicações. O Guardian tem três citações a ele, mas nenhuma relacionada às suas ideias sobre a relação vida pessoal e trabalho.
"O brasileiro é naturalmente inclinado ao ócio criativo", diz ele, explicando sua fama por aqui. Na última semana, De Masi esteve pela quinta vez em Curitiba "sou muito amigo de Jaime Lerner" , onde conversou com executivos do Grupo Boticário. Crítico do modelo de administração norte-americano, o sociólogo afirma que empresas em geral são reacionárias. O ideal para o jovem, diz ele, é buscar um emprego autônomo e intelectual. Mas foi isso que disse aos executivos de O Boticário? "Não. O Boticário é uma exceção mundial", garantiu. "O clima na fábrica parece o de uma grande família." Leia os principais trechos da conversa.
Redes sociais no trabalho
Sou um entusiasta, considero uma coisa positiva. Há vários níveis de comunicação. O primeiro nível é oral; o segundo é escrito, a letra epistolar; o terceiro nível é o telefone; o quarto é a internet, o mais alto, que permite comunicação entre todos. É uma maravilha!
Empresas e tecnologia
As empresas são o que há de mais retrógrado no mundo, as empresas e os jornalistas. As empresas porque têm tecnologia e não a usam, poderiam usar o trabalho a distância. Você vai à redação de manhã? Por quê? Não tem motivo, poderia fazer as ligações de casa, fazer entrevista a distância... Mas existe esse hábito de todos irem à redação do jornal; é um teatro, uma representação teatral. As empresas não usam a tecnologia, elas fazem seminários sobre a inovação, mas não inovam nada. Não falo de O Boticário, porque O Boticário é uma exceção mundial, de crescimento extraordinário. Mas, em geral, as empresas são antiquadas; falam de inovação mas não a fazem. Porque inovação é liberdade e as empresas não são livres.
Dica para os jovens
Há vários tipos de produtos, há produtos físicos e intelectuais. Obviamente é melhor buscar uma empresa que produz produtos intelectuais. Porque o trabalho intelectual é melhor que o trabalho físico. Depois disso, o trabalho deve ser o mais autônomo possível. Intelectual e autônomo: as duas condições para que o trabalho seja agradável. Em 1850, 90% dos empregos não eram intelectuais nem autônomos. Pense no trabalho do mineiro, por exemplo. Mas as máquinas agora estão fazendo esse tipo de trabalho. Há uma grande redistribuição do trabalho. E o ideal é buscar o trabalho autônomo e intelectual, como o poeta ou o escritor que escreve romances.
Novo livro
Estou escrevendo sobre as diferenças que existem entre os diferentes modelos de vida no mundo. Eu analiso 14 modelos de vida. Como se o senhor nascesse agora, na China, no Japão, na Índia, nos países muçulmanos, na época grega, romana, no Iluminismo, e no Brasil. O Brasil é o último capítulo. O melhor modelo neste momento é o Brasil.
Brasil, o melhor
É um grande país, como a China e a Índia, mas é uma democracia. A China não é democracia. A Índia é uma semidemocracia, porque uma única família está no poder desde 1947. O Brasil é um país em que a diferença entre ricos e pobres está diminuindo. Depois, o clima é particularmente bom no Brasil. A qualidade de vida, a alegria, a sensualidade, a solidariedade. São coisas únicas que existem no Brasil. Vocês não têm ideia da sorte de serem brasileiros.
Gestão à americana
É uma loucura. A filosofia dos americanos é de engenheiros, que prega a competitividade e a eficiência quantitativa, não a qualidade da vida.



