O Brasil tem boas chances de se tornar o primeiro país a ganhar uma nota de grau de investimento depois do estouro da crise mundial. Até o início de outubro, a agência de classificação de risco Moodys deve concluir a revisão do "rating" (índice) brasileiro, e é provável que atribua ao país o chamado "investment grade" espécie de "atestado de bom pagador" que costuma facilitar a atração de dinheiro estrangeiro.
Como as duas maiores concorrentes da Moodys, a Standard & Poors e a Fitch, concederam essa nota ao Brasil há mais de um ano, uma nova promoção não deve ter repercussão tão grande em termos práticos. Mas, por chegar após a maior crise econômica desde a década de 30, terá um importante efeito psicológico: o reconhecimento de que, após todos os percalços das décadas de 80 e 90, a economia brasileira se estruturou a ponto de desenvolver uma razoável resistência a choques externos.
"O momento ainda é delicado, mas, considerando-se as circunstâncias, nossa situação é muito boa. Estamos mostrando sinais de recuperação, e atravessamos esta crise de uma forma melhor que em todas as crises anteriores, que eram relativamente mais fracas", avalia a economista Fernanda Feil, da consultoria Rosenberg & Associados. "Ao contrário dos dois primeiros graus de investimento, este virá depois da crise. Ou seja, enfrentamos uma prova muito difícil e fomos aprovados."
Na teoria, o trabalho das agências de rating não é testar se um país é duro na queda, mas apenas definir qual a possibilidade de ele pagar suas dívidas em dia e, portanto, se é seguro investir em ações de suas empresas ou emprestar dinheiro para o governo. Mas, a julgar pela recente postura da Moodys, a crise forçou a inclusão de outros quesitos nessa avaliação.
Desde o início do ano, a arrecadação do governo tem caído, seus gastos, crescido e a dívida pública, subido. Até uma professora generosa deixaria o país em recuperação. Mas, surpreendentemente, a Moodys anunciou no início de julho que colocou a nota brasileira "em revisão para possível elevação". O motivo? "Ainda que a economia apresente crescimento negativo do PIB [Produto Interno Bruto] e uma expectativa de deterioração das contas fiscais em relação aos anos anteriores, o desempenho geral do Brasil excedeu as expectativas iniciais [se] comparado ao de outros países, incluindo alguns com ratings mais elevados", justificou a agência.
Hoje, a nota que a Moodys dá ao país é "Ba", a mais alta dentro da classificação de grau especulativo, e sinaliza risco médio de calote. O próximo degrau é a nota "Baa", já na categoria grau de investimento, e indica baixo risco de inadimplência. "Acho que o investment grade virá, e será merecido. Em plena crise, o Brasil elevou suas reservas internacionais. Tinha US$ 205 bilhões antes, e hoje tem mais de US$ 220 bilhões. Um valor que paga, com sobras, a dívida externa", lembra Bráulio Borges, economista da LCA Consultores.
Para ele, outro motivo determinante para a promoção é que, em meio à deterioração fiscal mundo afora, o déficit nominal do país o "prejuízo" do governo será um dos menores do mundo. "O déficit brasileiro ficará perto de 2% do PIB neste ano. Estados Unidos e Reino Unido, que injetaram trilhões em suas economias, terão déficit superior a 10% do PIB. Em vários países emergentes, ele ficará em 4% ou 5%", estima. Outras consultorias esperam um déficit maior no Brasil a própria Moodys aposta em 3,3% do PIB , mas, qualquer que seja o resultado, será "muito bom" na atual conjuntura, segundo Borges.



