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15 anos de estabilidade

Câmbio conteve inflação, mas arruinou contas públicas

Veja o saldo da balança comercial desde implantação do plano real |
Veja o saldo da balança comercial desde implantação do plano real (Foto: )

"Para os empresários, parece haver uma espécie de lei da gravitação universal porque, não importa qual seja o câmbio, ele está sempre defasado em 30%." A frase poderia ser de ontem, mas beira os 15 anos. Foi dita pelo então ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, em plena Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), em agosto de 1994. Na ocasião, Ricupero – que cairia dias depois por causa de uma frase infeliz captada por antenas parabólicas – estava defendendo a política cambial do governo, que mantinha o real valendo mais que o dólar.

Somado à abertura do comércio exterior, o câmbio valorizado deu grande contribuição ao controle da inflação. A entrada fácil de importados impedia os fabricantes brasileiros de elevar seus preços. Mas o próprio Ricupero se preocupava com as consequências da tal "âncora cambial". Ela durou muito mais do que a equipe econômica poderia prever – e teve efeitos devastadores, não apenas sobre as exportações, mas sobre o próprio equilíbrio da economia.

No início do plano, a defasagem alegada pelos exportadores se mostrou mais verdadeira que nunca. Segundo estudo publicado em 2008 pelos economistas Fernando Antônio Ribeiro Soares e Maurício Barata de Paula Pinto, da Universidade de Brasília (UnB), a sobrevalorização do real oscilou de 30% a 35% entre 1994 e 1995. Caiu na sequência, mas, pouco antes da crise de janeiro de 1999 – quando o dólar finalmente passou a flutuar – ainda estava em 16%. Nessa toada, as exportações brasileiras patinaram por meia década.

Desequilíbrios

A balança comercial entrou no vermelho no início de 1995 (havia mais importações do que exportações), desequilibrando as contas externas – saíam mais dólares do país do que entravam. Para contornar esse desequilíbrio, o governo tinha de atrair capital estrangeiro, pagando juros altos e ampliando o déficit de suas contas. Ainda assim, insistiu em manter o dólar "quase fixo" até 1999, quando sucumbiu à quarta crise cambial em quatro anos – antes, houve a do México (1995), a da Ásia (1997) e a da Rússia (1998).

Na inócua tentativa de resistir ao ataque especulativo, o Banco Central vendeu US$ 32,5 bilhões entre agosto e dezembro de 1998, "queimando" mais da metade das reservas internacionais. "Foi construída uma armadilha (...) que, inevitavelmente, causaria uma crise no futuro. Poderia ocorrer uma crise monetária ou uma moratória [calote da dívida]. Ocorreu a primeira", conclui o estudo dos economistas da UnB. (FJ)

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