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Engajamento

Campanha viral bate recorde e gera discussões

Como um manifesto contra um grupo guerrilheiro da África se tornou o maior fenômeno de compartilhamento da web até hoje

Estudantes fazem passeata contra Joseph Kony em Salt Lake City, nos EUA: Exército de Resistência do Senhor conta com forte oposição internacional | Invisible Children
Estudantes fazem passeata contra Joseph Kony em Salt Lake City, nos EUA: Exército de Resistência do Senhor conta com forte oposição internacional (Foto: Invisible Children)
Russel: depois do sucesso, a psicose |

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Russel: depois do sucesso, a psicose

No dia 5 de março entrou no ar, no canal da ONG Invisible Chil­­dren, no YouTube, o vídeo "Kony 2012" Em seis dias, ele já tinha sido visto 100 milhões de vezes. É o maior viral da história. Com meia hora de duração (uma eternidade, se comparado à duração de outros virais), o curta apresenta uma campanha cujo objetivo é capturar e levar ao Tribunal Penal Internacio­­nal o criminoso de guerra ugandense Joseph Ko­­ny, líder do Exérci­to de Resistên­­cia do Senhor, que há mais de vin­­te anos, sequestra crian­­ças, trans­­formando-as em es­­cravas sexuais ou soldados.

O objetivo da campanha é fazer que o maior número de pes­­soas saiba quem é Joseph Kony e, a partir disso, cobre das autoridades medidas para capturá-lo e levá-lo a julgamento. Para tanto, propõe que o espectador peça a celebridades e autoridades que apoiem a causa, sugere a doação de "uns dó­­lares" e a compra de um kit de mo­­bilização, com pôsteres, adesivos e braceletes. Mas acima de tudo, pede a quem vê o filme que o mostre ao maior número de pessoas. Basta "compartilhar" no Facebook.

Além dos 100 milhões de vi­­sualizações em seis dias, esgotaram-se kits vendidos pela ONG a US$ 30 cada um. E, na mesma ve­­locidade que se tornava popular, o vídeo re­­cebia críticas.

Críticas de todos os lados: de ques­­tionamentos sobre os reais interesses da ONG a acusações de desinformação. E a cada nova crí­­tica publicada, surgia uma no­­va defesa. A própria ONG, em seu ca­­nal no Vimeo, começou a responder aos questionamentos em vídeos conduzidos pelo CEO da organização, Ben Keesey, que termina o vídeo pedindo "pergunte qualquer coisa". Basta twittar a pergunta, em inglês, com a hashtag #askICanything.

Além de artigos e ensaios es­­critos por jornalistas e intelec­­tuais ocidentais, houve também forte reação vinda de Uganda, país escolhido pela ONG como área de atuação, embora Joseph Kony não esteja mais lá – o seu exército hoje encontra-se espalhado pelo Sudão do Sul e pela Re­­pública Centro-Afri­­cana. Um ví­­deo da blogueira Rosebell Ka­­gumire, postado no dia 7, foi visto mais de 500 mil vezes até sexta, 16 – mesma quantidade de views que a versão legendada em português do vídeo "Kony 2012" teve.

Uma projeção ao ar livre em Lira, cidade na região norte de Ugan­­da, gerou revolta entre as ví­­timas das atrocidades do Exér­­cito da Resistência do Senhor. "Se as pessoas lá fora realmente se preocupam com a gente, elas não deveriam usar camisetas do Joseph Kony em nenhuma hipótese. Isso é celebrar nosso sofrimento", diz um homem que foi raptado pelas forças de Kony. A reportagem pode ser vista no ca­­nal da Al-Jazira no YouTube.

Vídeo levanta questões sobre política e ativismo on-line

"Antes de Kony 2012, o maior sucesso viral do YouTube era Susan Boyle. Agora, o mundo está discutindo como eliminar a distância entre o mundo que temos e o mundo mais seguro e pacífico que todos querem." As palavras são de Emma Ruby-Sachs, advogada e jornalista que dirige campanhas para a ONG Avaaz.

Ela sabe do que está falando. O Avaaz é a ferramenta de abaixo-assinados online mais usada do mundo hoje. No seu site, há espaço para causas das mais variadas, em todo o mundo: contra o acordo antipirataria Acta, de apoio à oposição na Síria, contra a usina de Belo Monte. Uma das mais bem-sucedidas, com 1,2 milhão de assinaturas, é em prol de uma espécie de abelha ameaçada por um pesticida da Bayer.

Um milhão de assinaturas é um mero zumbido perto do estrondo que foi Kony 2012. Com o vídeo dirigido por Jason Russell, o mundo do ativismo online foi jogado num patamar muito mais alto do que aquele com que estava acostumado. Até sexta-feira passada, eram 150 milhões de visualizações na web. Com isso, o filme sobre o "senhor da guerra" de Uganda se tornou oficialmente o maior viral de todos os tempos. E, como lembrou Emma Ruby-Sachs, é o único dos 15 mais viralizados da história que trata de uma causa.

"O vídeo é uma ação exitosa, o objetivo era informar pessoas sobre a causa e conseguiram. Seattle, em 1999, Praga, em 2000, e Gênova, em 2001, tam­­bém conseguiram mobilizar as pessoas online", lembra Kelly Prudencio, pesquisadora e professora de pós-graduação de comunicação da Universidade Federal do Pa­­raná. "Mas naquele mo­­men­­to o único objetivo era reunir as pessoas para ir à rua protestar contra a OMC, o FMI, o Ban­­co Mundial e o G8. Hoje, o ativismo social só pode acontecer online."

É a militância que não sai na rua, mas se espalha através de links, e-mails e redes sociais. O filme mostrou o quão poderosa pode ser essa onda de cliques dos cidadãos comuns.

Kony 2012 mobilizou milhões de cidadãos americanos na rede, que exigiram posicionamento do Congresso americano e do presidente Barack Obama a respeito da questão. Surtiu efeito: "Parabe­­niza­­mos a mobilização das centenas de milhares de americanos", disse o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney.

O filme ganhou cacife para interferir na política externa do país mais poderoso do mundo. A intenção em inserir Kony na agenda do governo americano em 2012 é clara. "Essa questão simplesmente não é tema importante no radar da política externa dos EUA", diz John Prendergast, membro de outro projeto humanitário, no vídeo.

"Desde que o governo disse que seria impossível, não sabíamos o que fazer a não ser contar para todo mundo sobre Jacob e as crianças invisíveis", narra o diretor do vídeo e cofundador da Invisible Children. "Mostrar esse filme para quantas pessoas fosse possível de forma que não poderíamos ser mais ignorados. E fizemos. Pessoas se chocaram e a conscientização virou ação. Começamos algo, uma comunidade."

Esse processo gerou discussões sobre as consequências do ativismo na web. Por um lado, questões sérias ganham um alcance antes impensável com a internet e as redes sociais. Mas, por outro, o imediatismo que caracteriza grande parte desse engajamento gera preocupação. "É preciso tempo para se comunicar, entender e tomar decisões politicas", opina Kelly Prudencio. "O ativismo na internet força a barra nesse sentido. O vídeo do Kony obriga as pessoas a assimilarem um conteúdo complexo muito rapidamente e tomar atitudes a partir dele."

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