Os gastos com serviços efetuados via telefone celular estão atingindo o bolso de segmentos enormes da população do mundo em desenvolvimento
Empresários, empresas, ONGs e governos exaltam a tecnologia móvel como uma ferramenta que pode fazer a diferença no combate à pobreza em âmbito mundial. Mas e se, sem nos darmos conta, a nossa vontade de conectar o mundo estiver agravando o fosso econômico mundial?
Em 2008, o New York Times relatou que os telefones celulares podem ser a chave para acabar com a pobreza mundial. O entusiasmo era e é compreensível: de 2005 a 2010, o uso de celulares triplicou no mundo em desenvolvimento. Segundo a União Internacional de Telecomunicações, existem hoje cerca de 6 bilhões de contas de telefones celulares em todo o mundo. A penetração da telefonia celular atingiu 79% do mundo em desenvolvimento. Vários estudos sobre as tecnologias de informação e comunicação para o desenvolvimento (ICT4D) têm relacionado o aumento da adoção de celulares a tendências positivas nos indicadores de desenvolvimento econômico e humano, desde o produto interno bruto até o Índice de Progresso e Saída da Pobreza do Banco Grameen.
Apesar do otimismo, uma dura e nova realidade também se apresenta. Tomemos o exemplo do tão celebrado M-PESA, o popular sistema de pagamentos e transferências de dinheiro via telefone celular do Quênia. Em apenas quatro anos, o número de usuários do M-PESA cresceu para 14 milhões. Ele agora processa mais transações só no Quênia do que o banco Western Union faz em nível mundial. O uso de telefones celulares para transferir dinheiro e administrar finanças pessoais tem proporcionado um sistema de prestação de serviços mais rápido e com melhor relação custo-benefício para milhares de quenianos. Em 2009, a revista The Economist divulgou que as famílias quenianas que estavam fazendo uso do M-PESA viram o seu rendimento aumentar de 5 até 30 por cento depois de começarem a usar o sistema bancário móvel. Até o final de 2009, o M-PESA tinha chegado a 65% das famílias quenianas.
Mas esse programa assim como outros similares a ele tem um lado negativo que é muitas vezes ignorado: esses serviços de transações financeiras via celular não chegam efetivamente aos mais pobres entre os pobres. Em um estudo sobre o uso do M-PESA realizado em 2010 no Quênia, onde esse sistema tem sido mais adotado, 60% do quartil mais pobre da população não utilizavam o serviço. Parte do problema é o acesso: as empresas de telecomunicações têm relativamente pouco incentivo para construir infraestrutura, especialmente nos mercados mais pobres e rurais.
A cobertura não é o único problema. Os serviços de transações financeiras via celular têm uma estrutura de cobrança de tarifas pelas transações que é proibitiva para aqueles que vivem abaixo da linha da pobreza, atualmente cerca de 50% da população queniana. Esses usuários são obrigados a pagar tarifas extremamente elevadas para realizar as suas operações modestas. Por exemplo, uma transferência de 1 dólar via M-PESA cobra uma tarifa de 12% uma transação de 5 dólares via M-PESA cobra uma tarifa de quase 8%. Pode não parecer muito, mas para os mais pobres entre os pobres, trata-se de um dispêndio substancial.
Tais modelos de negócios baseados em tarifas são voltados à maximização de receitas, o que se traduz em um nível impressionante de extração de recursos de comunidades pobres. Um relatório publicado em 2007 pela rede de pesquisas Research ICT Africa examinou as despesas na renda de 17 países africanos e descobriu que muitos dos indivíduos mais pobres estudados gastavam mais de 16% de sua renda total em serviços via telefone celular. Obviamente, nesses locais, os custos atuais da conectividade são extremamente altos. No entanto, embora as tecnologias para reduzir drasticamente o custo da conectividade já existam, os políticos e os reguladores não estão dispostos a adotar políticas arrojadas que implementem soluções inovadoras e promovam uma concorrência significativa. No Brasil, por exemplo, durante o governo do presidente Lula, os reguladores estavam dispostos a enfrentar interesses financeiros poderosos; no entanto, na maior parte do mundo em desenvolvimento, os políticos continuam relutantes ou incapazes de criar ambientes regulatórios que beneficiem os pobres.
O crescimento da conectividade móvel não é vantajoso para todos. Quanto mais pessoas usam e se beneficiam de serviços via telefone celular, mais cresce o fosso entre os usuários e aqueles que ficam de fora. Isso cria um fosso econômico maior e deixa os mais pobres para trás. O momento de mudarmos radicalmente o modo como abordamos a ICT4D e o fosso digital é agora. Temos de encontrar soluções práticas e adequadas para apoiar uma conectividade móvel de baixo custo verdadeiramente universal. Para isso, precisaremos de reguladores e formuladores de políticas dispostos a encarar as difíceis batalhas regulamentares necessárias para garantir que os chefes das famílias mais pobres sejam capazes de desfrutar de fato do poder da conectividade móvel. Se não o fizermos, correremos o risco de ajudar muitas pessoas, mas à custa de prejudicar partes substanciais da população mundial.



