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Mercado financeiro

“Choque de realidade” abre nova fase para a Bovespa

Depois da euforia que marcou os últimos anos, bolsa brasileira vem sofrendo os efeitos da turbulência internacional

Efeitos da crise na Bovespa |
Efeitos da crise na Bovespa (Foto: )

Em meio à crise que varre o sistema financeiro internacional, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) vem passando por um "choque de realidade", com forte correção dos preços dos papéis, o que, para alguns analistas, já marca uma nova fase do mercado de capitais brasileiro. Depois da euforia que ajudou a "bombar" as ações nos últimos dois anos e a estimular o "boom" de aberturas de capital, a bolsa brasileira encerrou a semana com o pior desempenho do ano. Atingiu a menor pontuação (44,5 mil pontos) e registrou a maior desvalorização – de 12,34% – em apenas cinco sessões. No acumulado de 2008, as perdas alcançaram 30,32%.

Uma das bolsas com melhor desempenho no ano passado, a Bovespa está hoje entre as que reportam maiores perdas com a crise. Desde o início do ano até o fim de setembro, as empresas já perderam R$ 513,4 bilhões de valor de mercado na bolsa, de acordo com estudo da consultoria Economática.

Apesar da aprovação e da sanção do pacote anticrise pelo presidente norte-americano George W. Bush na sexta-feira, os mercados continuaram pessimistas com a divulgação dos dados de emprego nos Estados Unidos, que registraram o menor índice em cinco anos.

Para analistas, a Bovespa dificilmente irá bater tão cedo a marca dos 73,5 mil pontos registrados em maio, mantendo-se na faixa dos 45 mil pontos. "A irracionalidade que imperou nos últimos dois anos não vai mais se repetir. Hoje o que vemos é um ajuste para a realidade. Não é o preço de agora que está errado. O que estava errado era o preço em vigor antes da crise", acredita Nelson Luiz Paula de Oliveira, vice-presidente de relações institucionais do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef) no Paraná.

O mercado vem promovendo uma espécie de "seleção natural" principalmente nas ações das novatas na bolsa, cujos papéis vêm tombando feio. Para Oliveira, o preço de lançamento de muitas empresas estava fora da realidade. A própria euforia dos investidores ajudou a inflacionar o mercado. "A loucura era tanta que se aceitava qualquer coisa. Muita gente chegou a pensar em vender a casa para aplicar o dinheiro na bolsa", lembra.

Para Monica Araújo, estrategista da Ativa Corretora, o mercado está reavaliando os preços dos ativos e ninguém sabe ao certo quando esse processo vai terminar. "Mas, com certeza, o cenário de menor liquidez deve se manter para os próximos anos, e isso significa que não vamos ter um cenário tão favorável à valorização como no passado", alerta. O Brasil, no entanto, representa boas oportunidades de longo prazo, já que deve ser menos afetado pelas turbulências. Ao contrário do que ocorreu em crises anteriores, como a da Ásia e da Rússia – quando o pessimismo aqui era sempre maior em função da aversão ao risco –, desta vez as condições do Brasil são bem melhores. "Há uma expectativa de recessão mundial, mas o país vai continuar a crescer, ainda que em ritmo menor", diz a estrategista.

Apesar disso, o mercado ainda vai permanecer um tempo "curando as feridas" e prosseguir com a correção de exageros, na avaliação de Ricardo Binelli, analista da Petra Corretora. De acordo com ele, no atual cenário, o mercado só compra papéis com deságio.

Concentração

Segundo analistas, a forte concentração do Ibovespa em ações ligadas a commodites, como Vale, Petrobras e Usiminas e Gerdau, tem contribuído para a queda mais expressiva da bolsa brasileira. Com a perspectiva de redução dos preços internacionais das commodities, essas empresas puxam o índice para baixo. A liquidez da bolsa brasileira – que atraiu muitos investidores estrangeiros com as aberturas de capital nos últimos dois anos – também favorece uma conexão rápida com os efeitos da crise global.

Grande parte da queda na Bovespa está sendo puxada pela saída de investidores estrangeiros, que vendem ativos aqui para cobrir rombos provocados pelo mercado de hipotecas nos EUA. Estima-se que 70% dos papéis comprados por empresas que lançaram ações nos últimos dois anos foram adquiridos por estrangeiros

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