A primeira vez que notei a cruz de cimento, ao lado do meu caminho, foi quando parei para ouvir a famosa música As time goes by do filme Casablanca, que de forma incrível saía daquela pequena loja de cosméticos naturais e fluía entre as arvores e cedros umedecidos pela garoa. A solidão absoluta na rua de terra batida, um long-play maravilhoso num toca-discos no chão e o simpático rapaz que repetiu, a meu pedido, a famosa interpretação de Jimmy Durante. O tempo passou, o rapaz faleceu e encontrei a lojinha fechada. Soube depois que havia uma promessa dele que, se conseguisse a recuperação, construiria no lado da casa uma capela, uma pequena igrejinha. Construiu a cruz.
Diferente pois não tem corpo de Jesus, apenas seu rosto esculpido em cimento, virado para o lado com expressão de sofrimento. Em cima, uma luz iluminava, no começo, o rosto e parte da cruz. Depois, as chuvas queimaram a lâmpada e destruíram os fios. Vieram novos inquilinos, também agradáveis, que procuraram sossego e melhorar a saúde com o clima de serra. Ficaram alguns meses, não suportaram o frio e a solidão, eram de Nova Iorque. Mas, nesse espaço, limparam o gramado, plantaram flores e pintaram a casa. Estavam sempre na varanda, tomando chá. E ao lado a cruz, onde passei a acender velas, com o consentimento deles. Fazia minhas orações e seguia em frente, sempre agradeci ao Senhor por estar ali naquele paraíso e pela vida protegida e agradável que tenho.
Compare sua existência com um africano, ou um palestino, ou mesmo de um brasileiro favelado. A realidade é outra. Todos os dias penso nisso em minhas orações, e agradeço. Agora, nos feriados, voltei a Visconde de Mauá. Em conversa com a Lúcia, que cuida da casa onde me hospedo, soube que fotos tiradas da cruz revelaram vultos estranhos desfigurados. Não aceitei a história. Passado um dia, Lúcia trouxe testemunhas que tinham visto as fotos. Todos confirmaram e acrescentaram mais informações sobre habitantes fantásticos do terreno em volta. Justamente onde acendo as velas e rezo. Me impressionou muito o fato que sempre tive dificuldades para colocar as velas, um vento estranho apaga meus fósforos ou o pavio, depois de muito trabalho, onde chego a gastar dezenas de fósforos em seqüência.
"Não volte lá, dr. Carlos", me advertiram. Fui para casa pensativo e disse ao Pedro Vieira que me acompanhava: "Eu volto, nada está acima do Senhor". Qualquer que seja a situação não nego minha fé em Cristo. Vou voltar e rezar como sempre fiz. Igreja não é para ir a casamento e acontecimentos sociais. É para receber a bênção divina, se encontrar com o Senhor, agradecer à Nossa Senhora a sua misericórdia, comigo e minha família. Sou católico apostólico romano e ponto final. A cada lugar do mundo que estive, sempre encontrei uma porta aberta na casa de Cristo e lá recebi a santa comunhão. Mesmo que não entendesse a língua que rezavam, estava junto em pensamento e na bênção final. Eram e são meus irmãos em Cristo. Pois bem, comprei outras velas, várias caixas de fósforo e fui para a frente da cruz. Entrei no terreno já tomado por ervas e mato, mas com hortências crescendo em volta. Com ajuda do Pedro, nome do Apóstolo e fundador da Santa Igreja, acendi as velas e rezei como de costume. Terminando com a frase "nada está acima do Senhor Jesus e sua força", voltamos depois. As velas brilhavam já no fim, e iluminavam parte da Santa Cruz. O vento não conseguiu apagá-las. Amém.



