Além de obstáculos econômicos não desprezíveis, o Brasil ainda enfrenta severas barreiras psicológicas para reduzir as taxas de juros. Há também muitos fatores jogando a favor, e o principal deles é que a rolagem da dívida pública tende a ficar cada vez mais fácil. Em passado recente, mais de 80% da dívida venciam em 12 meses; hoje essa parcela não chega a 25%.
O montante de títulos do Tesouro Nacional emitidos é da ordem de R$ 1,2 trilhão, do qual R$ 370 bilhões equivalem a antigos papéis de estados e municípios que saíram de circulação após uma penosa renegociação com a União. O Tesouro trocou esses papéis por títulos federais, que eram mais aceitos pelo mercado. Como contrapartida, estados e municípios que fizeram a renegociação transferem anualmente para os cofres da União cerca de 13% de sua receita disponível.
Por causa da inflação crônica, das dúvidas quanto à trajetória do câmbio e das surpresas que as autoridades costumavam aprontar, as aplicações financeiras se concentraram no curto prazo. Essa foi a forma encontrada pelos poupadores e intermediários financeiros para se protegerem da pouca previsibilidade da economia. E assim o Brasil se transformou no país do overnight.
Embora a inflação seja persistente por aqui, os riscos que envolvem a economia brasileira diminuíram significativamente, o que é até reconhecido pela maioria das agências internacionais de rating. No momento, elas classificam a economia no conceito de grau de investimento (ou seja, estamos entre os países em que investidores estrangeiros têm quase a garantia de converter seus lucros em moeda local para sua moeda de origem).
O setor público, que era uma das maiores fontes de desequilíbrio da economia, ajeitou suas contas, aos trancos e barrancos, e efetivamente conseguiu cortar o déficit total. A gradual redução das necessidades de financiamento desse déficit ocorreu enquanto o Tesouro mantinha uma espécie de mercado cativo, formado por fundos que se habituaram, devido à cultura do overnight, a constituir suas carteira basicamente com títulos federais.
O corte nas taxas de juros não chegará a provocar uma fuga em massa desses fundos para outros ativos financeiros. Primeiro, porque esses papéis são vistos pelo mercado como um porto seguro. Segundo, porque a oferta de novos títulos deverá minguar (já que a própria diminuição dos juros cria um ciclo virtuoso, que contribui para encolhimento do déficit público).
A maioria dos economistas brasileiros prefere encarar a questão das taxas básicas de juros apenas pelo lado da política monetária no curto prazo. Nesse sentido, só haveria espaço para corte dos juros se a inflação ficar abaixo do ponto central das metas estabelecidas pelo governo. Não se dá, por enquanto, grande importância ao efeito benigno que o recuo dos juros proporcionará à economia ao deixar de alimentar graves ineficiências, em especial no sistema financeiro.
Essa barreira psicológica só será superada na prática se, com o tempo, esse esperado efeito positivo se confirmar. É um teste São Tomé pelo qual a economia brasileira terá agora a oportunidade de passar, desde que o Banco Central promova mais alguns cortes nos juros básicos.
O próximo desafio será derrubar as taxas para patamares de um dígito (abaixo de 10%, portanto). Teremos que torcer, ou rezar, para, até a reunião do Comitê de Política Monetária em 10 de junho, não surgir alguma pedra no caminho que inviabilize um novo corte.
A economia mundial entrou em crise pelo esgotamento da fórmula que possibilitou um crescimento acelerado por período de tempo mais longo do que o habitual. Em artigo recente publicado no jornal "Valor Econômico", André Lara Resende sintetizou essa fórmula como uma combinação de consumo elevado nos países já ricos com esforço de poupança e investimento nas economias emergentes. Os mercados financeiros internacionais viam com desconfiança a expansão do consumo doméstico nos países em desenvolvimento (por causa do endividamento em moeda estrangeira conjugado a esse processo), que, assim, após sucessivas situações de grande dificuldade, só tiveram alternativa de se voltar para o atendimento da demanda externa.
Mas o crescimento vertiginoso do consumo nas nações ricas causou um enorme endividamento do setor privado nesses países, que se sustentou enquanto os preços dos ativos (bens e títulos financeiros) se mantiveram muito valorizados.
Na opinião de André Lara Resende, essa fórmula está passando por um inevitável desmonte, de modo que o consumo e o crescimento no mundo desenvolvido não irão se recuperar enquanto o endividamento privado não se reduzir para um patamar razoável.
Economias emergentes agora dependem mais de seus mercados domésticos, o que também está condicionado a um esforço interno de investimentos que não poderão ser financiados por poupanças externas.
Como sair desse impasse? No artigo, André se referiu a uma articulação global, com apoio em instituições supranacionais, o que talvez venha a exigir novos acordos internacionais (vários Bretton Woods?). Em suma, ou se salva todo mundo, ou ninguém se salva.



