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Míriam Leitão

União dos bancos

A primeira conversa que os dois banqueiros, Pedro Moreira Salles e Roberto Setúbal, tiveram foi logo depois que o Santander comprou o Real. Eles acharam que a operação havia criado um outro "animal bancário" no país, antes dominado por empresas locais ou estatais. Eles tiveram 20 reuniões a sós, num "local discreto". Eles negam que seja compra, mas o Itaú terá muito mais poder.

Imagina uma conversa de Pedro Moreira Salles e Roberto Setúbal não chamar a atenção? Imagine várias.

– Nós íamos a um local discreto – me contou Pedro, ontem.

Segundo soube, as reuniões eram na casa de Israel Vainboim, presidente do Conselho de Administração da Unibanco Holdings. Lá nasceu o gigante que foi anunciado. A crise econômica acelerou as conversas e outras pessoas foram sendo incluídas nas negociações. Alfredo Villela, diretor-presidente da Itausa Investimentos. Depois entraram os advogados. O fechamento da operação, a comunicação a um grupo maior, a comunicação oficial ao presidente Lula e ao presidente do Banco Central, tudo foi neste fim de semana.

Na prática, o Itaú terá muito mais poder. Os controladores do Unibanco e os do Itaú terão, cada um, metade das ações com direito a voto da IU Participações, que terá 51% do novo banco. Porém, o Itaú terá, sozinho, 36% das ações ON do novo banco, sem passar pela IU Participações. Mas eles negam que seja uma compra. Garantem que é uma fusão. O Itaú BBA será o responsável pelas operações de atacado e investimento do grupo.

O anúncio, que animou o mercado e surpreendeu imprensa e clientes, é uma prova de que foi uma operação bem feita. Fosse mal feita, teria vazado, com repercussões perigosas.

Os dois bancos perderam muito valor de mercado, principalmente o Unibanco. Os dados são chocantes: o Unibanco perdeu 63,8% do seu valor de mercado do início do ano até 31 de outubro, isso significou R$ 33 bilhões. O Itaú perdeu 35% de valor de mercado no mesmo período, R$ 37 bi. Juntos, perderam mais de R$ 70 bi de valor. Mas ao mesmo tempo, juntos, tiveram lucros de R$ 8 bilhões nos primeiros trimestres do ano. Nascem com uma relação entre ativos e exposição a risco muito melhor do que a exigida por Basiléia. O índice de Basiléia é de 8%; o exigido pelo Conselho Monetário Nacional é 11%, a dos dois bancos é 15%.

A idéia original deles era como enfrentar um banco estrangeiro que tinha chegado com fome ao mercado brasileiro, engolido o Banespa, comprado o Real e apresentado uma atitude bem mais agressiva que os outros bancos estrangeiros. Enquanto conversavam, vários bancos procuraram o Unibanco. Ninguém diz quais, mas o mercado sempre comentou que, para o Citibank crescer aqui, seria o ideal. O Unibanco virou alvo pelo tamanho. Não era grande o suficiente e era mais do que um banco médio. Esse tamanho no meio do caminho facilitava as ofertas. Pedro Moreira Salles me disse ontem que o casamento ideal era mesmo com o Itaú.

– É uma união que permite sonhar. Juntas, as duas instituições poderão olhar para fora do mercado nacional. Surgirão oportunidades. A partir dessa plataforma, podemos acompanhar empresas brasileiras que buscam internacionalização, que antes tinham como alternativa trocar de banco.

Entre os bancos maiores brasileiros, os dois tinham o mesmo DNA de empresas familiares. Foram fundados por grandes empreendedores que já morreram, o embaixador Walter Moreira Salles e o ministro Olavo Setúbal. Os filhos continuaram os negócios, com a diferença de que, no caso dos Moreira Salles, só Pedro se dedicou totalmente ao banco: dos outros dois, Walter é cineasta e João é cineasta e publisher. Os outros bancos brasileiros grandes ou são estatais, como BB e Caixa, ou um banco já pulverizado após a morte do fundador Amador Aguiar, que é o Bradesco.

Pelo risco indicado na perda de valor de mercado, pelo risco da crise internacional grave, pelas afinidades que compartilham, porque o Banco do Brasil já teve licença para ir às compras, pelas ofertas feitas ao Unibanco, eles tinham mesmo que encontrar um caminho comum, como anunciado ontem.

Qual a conseqüência do fato? Haverá mais movimentos de concentração no mercado brasileiro. Há incentivo do BC para compra de carteiras, para absorção dos bancos pequenos, e agora há o desafio posto pelo Itaú Unibanco Holding, que virou o maior banco do país. O Bradesco, que vinha sempre sendo ultrapassado pelo Itaú em lucro, deve agora estar preparando seus movimentos. O Banco do Brasil quer comprar a Nossa Caixa, o BRB e o Banco do Piauí, depois de ter comprado o Besc.

Normalmente, concentração de mercado é ruim para o consumidor. Mas este é um momento de emergência, de crises externas, de abalo da confiança em bancos em vários mercados. Melhor que haja uma manobra preventiva e que o Brasil jogue na ofensiva. Tanto o BC, quanto os bancos. Este resto de ano e 2009 não serão fáceis para os bancos. No Brasil, eles estão tão preocupados em manter liquidez que têm se esquecido da razão pela qual vieram ao mundo: intermediar, emprestar, conceder crédito. Para crescerem, terão que sair da poça de liquidez em que cada banco brasileiro está se entrincheirando.

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