Muitas retrospectivas da vida de Ted Kennedy mencionam o arrependimento do político por não ter aceitado a oferta, feita pelo então presidente dos Estados Unidos Richard Nixon, de realizar um acordo bipartidário para a crise no sistema de saúde norte-americano. A lição que alguns analistas tiram dessa história é a de que os políticos de hoje deveriam fazer aquilo que Kennedy deixou escapar: costurar uma reforma junto com a oposição.
Mas essa é uma analogia ruim, uma vez que o cenário político atual não é nada parecido com o do início dos anos 1970. Aliás, ao observar a política de hoje, chego a sentir saudades de Richard Nixon.
Não, eu não perdi a cabeça. Nixon foi certamente a pior pessoa além de Dick Cheney a fazer parte do Poder Executivo dos EUA. Na era Nixon, entretanto, os líderes dos partidos Republicano e Democrata eram capazes de falar racionalmente sobre propostas e as decisões não eram distorcidas pelo dinheiro corporativo como são hoje. Em muitos aspectos, os EUA são um país melhor do que há 35 anos, mas a capacidade de nosso sistema político de lidar com problemas reais foi degradada ao ponto de eu me perguntar, às vezes, se o país ainda é governável.
Como muitos destacaram, a reforma do sistema de saúde proposta por Nixon se parece muito com o projeto atual dos democratas. Em certos aspectos, ela era até mais forte. Hoje, os republicanos reclamam da ideia de se exigir que grandes empresas ofereçam planos de saúde aos seus funcionários; Nixon queria que todos os empregadores, não apenas as empresas grandes, oferecessem esse tipo de seguro.
Nixon também defendia uma regulamentação mais rígida das seguradoras, e pediu para os governos estaduais "aprovarem planos específicos, supervisionarem tarifas, assegurarem a devida transparência, exigirem auditorias anuais e tomarem outras medidas apropriadas". Não havia ilusões de que a mágica do mercado resolvesse todos os problemas.
O que aconteceu então com o ambiente em que um presidente republicano podia falar de forma tão isenta de ideologias e oferecer uma proposta tão razoável? Parte da resposta está no fato de os radicais de direita que sempre estiveram rodeando o circo político (como disse o historiador Rick Perlstein: "Loucura é uma condição pré-existente") controlarem agora um dos dois partidos norte-americanos. Os republicanos moderados, os mais receptivos a negociar um acordo para o sistema de saúde, foram expulsos do partido ou intimidados para ficarem quietos.
A quem os democratas devem recorrer, se o senador Chuck Grassley, de Iowa, possível pivô de qualquer acordo, alimentou as mentiras sobre a criação dos "painéis da morte"? Ainda assim, existe outra razão por que a reforma na saúde é muito mais difícil agora do que na era Nixon: a enorme expansão da influência corporativa.
Tendemos a pensar que fenômenos atuais como o gigantesco exército de lobistas permanentemente acampado nos corredores do poder ou corporações preparadas para fazer anúncios enganosos e organizar falsos protestos populares contra qualquer lei que ameace suas atividades sempre existiram. Mas esse sistema dominado pelo dinheiro corporativo é algo relativamente recente, surgido principalmente no final dos anos 1970.
Agora que esse sistema existe, reformas de qualquer tipo tornaram-se extremamente difíceis. Isso é ainda mais verdadeiro na área de saúde, onde o aumento de gastos fortaleceu interesses escusos. A indústria dos planos de saúde em particular viu seus prêmios irem de 1,5% do PIB em 1970 para 5,5% em 2007, o que transformou uma pequena empresa em um mamute político, que atualmente gasta US$ 1,4 milhão por dia fazendo lobby no Congresso.
Essa dinheirama abastece debates que antes seriam incompreensíveis. Por que democratas "centristas" como o senador Kent Conrad, da Dakota do Norte, se opõem tanto a deixar um plano público, em que a população compraria seus seguros diretamente do governo, competir diretamente com as empresas privadas? Não importa que seus argumentos sejam quase sempre incoerentes; tudo se resume ao dinheiro.
Dada a combinação do extremismo do Partido Republicano e do poder corporativo, é muito difícil que uma reforma do sistema de saúde, mesmo que ela aconteça (o que não é garantido), será tão boa quanto a proposta de Nixon mesmo com os democratas controlando a Casa Branca e tendo a maioria no Congresso.
E com relação aos outros desafios? Todas as reformas necessárias, como o controle de emissões dos gases do efeito estufa e a restauração do equilíbrio fiscal, terão de passar pela mesma encruzilhada de lobby e mentiras. Não estou dizendo que os reformistas devem desistir. Mas eles precisam entender o que estão enfrentando.
Muito se falou no ano passado sobre como Barack Obama seria um presidente "transformador" mas a verdadeira transformação, ao que se vê, exige muito mais do que um líder televisivo. Para mudar os Estados Unidos, serão necessários anos de guerra contra interesses profundamente enraizados, que defendem um sistema político altamente disfuncional.
Paul Krugman, Nobel de Economia de 2008 e professor da Universidade de Princeton, escreve às segundas-feiras neste espaço.



