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Bernt Entschev

Duas em uma

Tâmara começou a trabalhar logo que concluiu o 2.º grau (hoje ensino médio), apesar de ter condições de adiar sua estréia profissional. Entretanto, o perfil independente dela a levou naturalmente a procurar uma ocupação e uma fonte de renda desvinculada do patrimônio dos pais. A verdade é que a jovem visualizava em seu futuro uma carreira promissora e, embora almejasse estruturar um lar, ter um marido, filhos, etc., estava convencida de que em hipótese alguma abriria mão de cultivar paralelamente uma rotina profissional.

Dedicada, Tâmara progrediu rapidamente na carreira, chegando a um cargo gerencial dentro de uma grande empresa. Além da faculdade, cursou especializações, um MBA e vários cursos de extensão que a mantiveram atualizada quanto às tendências de sua área. Mas mais do que conhecimento, a profissional tinha características comportamentais muito positivas, que realmente a fizeram sobressair entre os colegas na organização em que ela trabalhava.

Diante das boas perspectivas que nutria em seu trabalho, Tâmara foi adiando os planos que tinha de constituir uma família. Ela, que cultivava um namoro de longa data, postergou o quanto pôde o casamento e, antes mesmo de formalizar sua união, deixou bem claro para seu parceiro que nos próximos anos a vida profissional continuaria sendo uma prioridade para ela.

Já casada, quando passava dos seus trinta e poucos anos, Tâmara percebeu que não poderia atrasar muito mais seu projeto de ser mãe. Então, meses depois lá estava ela, com seu primeiro bebê no colo. Poucos anos mais adiante, veio o segundo. O que, no entanto, surpreendeu Tâmara foi a reação de sua empresa quando os problemas relacionados às crianças começaram a exigir mais da mãe. Àquela altura, a avó dos meninos, que até então tinha ajudado na criação dos netos, já apresentava problemas de saúde que a impediam de se dedicar tanto a esse tipo de tarefa. Ademais, mesmo com uma babá, havia assuntos concernentes às crianças que invariavelmente precisavam ser resolvidos pelos pais.

Diante disso, os empregadores de Tâmara começaram a mudar sua postura em relação à funcionária. Já não eram tão compreensivos como de costume cada vez que ela precisava se negar a permanecer no trabalho até mais tarde e passaram a se tornar reticentes quanto aos pedidos da profissional de se ausentar em algumas circunstâncias em que questões domésticas exigiam. Embora os resultados apresentados por ela continuassem sendo acima da média, a empresa queria mais.

Ciente dessa exigência, Tâmara preferiu tratar do assunto abertamente com um de seus chefes. Foi quando ouviu dele que, de fato, a organização não estava disposta a fazer muitas concessões aos colaboradores e que não tinha condições de adotar atitudes mais flexíveis só porque os filhos de algumas profissionais demandavam. Intrigada com esse posicionamento, Tâmara pediu demissão. Apesar da convicção que sempre manteve de não abrir mão da carreira, a jovem não aceitava que, depois de tantos anos de dedicação e grandes êxitos, a empresa não pudesse ser tolerante com sua nova condição.

Após deixar aquele emprego, Tâmara passou a buscar novas oportunidades profissionais com um critério bem definido. A partir dali só aceitaria uma oferta onde houvesse espaço para que ela também administrasse com competência as tarefas domésticas, sempre que não houvesse uma maneira de transferir tais responsabilidades para outra pessoa. Nesse meio tempo, porém, seus antigos empregadores atentaram para a falta que aquela profissional fazia no quadro de funcionários. Desde a saída de Tâmara, nenhum projeto da área que ela costumava tomar conta foi tão bem-sucedido e nenhum substituto demonstrou tanto comprometimento com a empresa quanto a ex-colaboradora. Foi aí que eles perceberam que deveriam ter sido mais tolerantes com uma profissional que mostrou tanta dedicação e esforço durante sua história na empresa.

Por essa razão, aproximadamente um ano depois de seu desligamento, Tâmara recebeu novo convite da empresa, para retornar a seu antigo posto. A promessa, dessa vez, era a seguinte: não só ela, mas todas as colaboradoras com filhos, especialmente pequenos, encontrariam maior compreensão de seus superiores quanto a questões pessoais em nome do bom relacionamento entre empregados e empregadores.

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Diferentemente do que se via 15 anos atrás, o profissional de hoje não está mais à mercê das empresas tampouco se mantém alienado a respeito do próprio planejamento de carreira. Esse indivíduo sabe o que quer pra si e está convencido de que sua vida profissional tem que acompanhar a realização pessoal. Por isso, ele tenta achar empresas que tenham propostas que vão ao encontro das expectativas dele. Perante esse cenário, a relação entre empresa e funcionários deve estar baseada, acima de tudo, no sentimento de parceria, na existência de uma grande troca. Afinal, o mercado de trabalho se mostra cada vez mais como uma via de mão dupla. Ou seja, a empresa não pode esperar que o profissional abra mão de tudo em nome do trabalho, assim como o profissional não deve achar que a empresa deve ceder a todos os seus caprichos. Quando, porém, ambas as partes prezam pela ética e pelo comprometimento, chegar a um meio termo fica muito mais fácil.

Saiba mais

Vivo Voluntário

Desde outubro de 2004, o Instituto Vivo, órgão de investimento social da Vivo, empresa de telefonia celular, promove o programa Vivo Voluntário. O projeto é desenvolvido por cerca de 600 voluntários da empresa, que recebem treinamento específico para atender deficientes visuais. O objetivo é contribuir com a inserção social desse grupo, desenvolvendo a digitação de livros e textos para ser transcritos para o sistema braille e a gravação de audiobooks. A iniciativa do projeto surgiu de uma pesquisa feita pela organização, que descobriu que os deficientes visuais somam, hoje, mais de 16,5 milhões no Brasil, e que apenas 3.800 cursam o Ensino Fundamental (dados fornecidos pelo IBGE). Até 2004 havia apenas 128 livros didáticos e paradidáticos em braille. Até o final do ano passado, o Vivo Voluntário reuniu mais de 27 mil páginas impressas nesse sistema de escrita, dando origem a 322 livros (92 títulos), que foram encaminhados para instituições de São Paulo, Rio de Janeiro, Maranhão, Rondônia, Rio Grande do Sul, Paraná, Bahia e Mato Grosso do Sul.

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Esta coluna é publicada todos os domingos. O espaço é destinado a empresas que queiram divulgar suas ações na gestão de pessoas e projetos na área social, bem como àquelas que queiram dividir suas experiências profissionais. A publicação é gratuita. As histórias publicadas são baseadas em fatos reais. O autor, no entanto, reserva-se o direito de acrescentar a elas elementos ficcionais com o intuito de enriquecê-las. Contato: coluna@debernt.com.br, ou (41) 3352-0110. Currículos: cv@debernt.com.br

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