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TALENTO EM PAUTA

O sujo falando do mal lavado

Outro dia aconteceu um fato curioso comigo. Estava em um restaurante aguardando um cliente quando pude escutar duas moças conversando próximas de mim. Pelo que pude entender, o tema da conversa das duas era um estagiário, colega de trabalho, que, segundo elas, não era nada humilde. Uma delas aparentava ter uma idade um pouco mais avançada, enquanto a outra era bem jovem, e era justamente esta que reclamava deste colega e contava, com certo desdém, que ele ainda tinha muito o que aprender sobre a vida corporativa.

O relato que ouvi foi o seguinte. O estagiário, numa certa ocasião, havia destratado uma funcionária, por ela não entender uma apresentação que ele havia acabado de fazer. Era uma proposta que ele havia montado, em que pretendia conquistar uma efetivação através da implementação de um novo processo na área em que atuava. Entretanto, a tal funcionária destratada não conseguia entender o propósito deste novo processo e opinou contra (o projeto, não a promoção do rapaz). Mesmo assim, o estagiário, sentido-se desaforado, esbravejou com a funcionária, dizendo que seu talento estava sendo subutilizado pela empresa e que, como excelente profissional que era, exigia ser efetivado, caso contrário pediria as contas e buscaria uma melhor oportunidade numa concorrente direta daquela empresa.

Realmente a moça tinha razão, o estagiário não havia sido humilde em sua colocação. Talvez pela imaturidade (certamente muito jovem) não soube lidar com uma opinião contrária à sua e pôs tudo a perder. O certo seria ele argumentar através dos pontos fortes de sua proposta e defender com todas as suas forças aquele projeto, já que dependia dele para, de fato, ser efetivado. Todavia, achando que seria fácil convencer a todos e surpreso por uma colega colocar à prova suas competências, lançou uma série de palavras permeadas de autoprestígio, e se colocava como um profissional experiente e superior a muitos que ali estavam, inclusive a tal funcionária.

A jovem do restaurante continuava contando a fofoca e, como finalização do ocorrido, contou que o estagiário foi convidado a se desligar da empresa por motivos justos. Ainda refletindo sobre o assunto, a moça disse que ele realmente não merecia ser efetivado, pois se tratava de um rapaz intransigente, que se achava melhor que todos, mas que na verdade não passava de um "filhinho de papai" que recebia tudo de mão beijada e que achava que no trabalho seria da mesma forma. Ela chegou a dizer que possuía muito mais atribuições que o rapaz e que ela, sim, merecia tal efetivação. Foi aí que entendi a indignação da jovem. Ela era concorrente direta do rapaz e também brigava pela posição.

A maneira com que ela falava sobre ele era tão agressiva que senti vontade de interferir na conversa e explicar à moça o que é humildade. Concordo que o rapaz não havia sido humilde, mas e ela? Julgar-se melhor que ele, mesmo que seja de fato, é uma atitude nada humilde. Almejar a mesma posição e brigar por ela vai além de dizer "ele é pior do que eu". Brigar por uma promoção significa trabalhar mais e melhor, mostrar resultados e mostrar que é capaz de tratar a todos com simpatia e, principalmente, respeito.

Mas, para meu alívio, não foi preciso que eu interferisse. A moça mais experiente logo começou a orientar a jovem e explicar-lhe que, agindo assim, ela também não estava sendo humilde. Falou sobre o verdadeiro significado da palavra e convidou-a a refletir um pouco sobre isso. A princípio, a jovem se mostrou arredia com a colocação de sua colega, mas logo entendeu o que ela queria dizer com aquilo e se propôs a repensar seus atos dali pra frente.

Infelizmente não pude ouvir o final da conversa, pois logo meu cliente chegou. Entretanto, folgo em saber que alguém um pouco mais experiente pôde influenciar positivamente alguém que poderá, com isso, fazer a diferença lá na frente. O futuro dos profissionais será cada vez mais ligado a questões comportamentais. Ser humilde deixará de ser uma virtude e passará a ser pré-requisito nas corporações. Afinal, uma das maiores características da humildade é a disposição para admitir falhas e, com isso, ir em busca de melhorar cada vez mais.

E você, é humilde? Não perca a Coluna Talento em Pauta da próxima terça-feira, 16 de junho, e comprove se você age como a mocinha do restaurante ou não.

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